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Archive for the ‘Artigo Doutrinário’ Category

A Luz da mediunidade

Na reflexão feita em edição anterior do Correio Fraterno, comentávamos a respeito dos conceitos de naturalidade e natureza na mediunidade com Jesus, sob a chancela da Codificação Espírita. O intento não era fazer racionalismos e lançar novelos retóricos sobre o tema, mas buscar, à luz da instrução, a essência desta faculdade natural ao Espírito humano: a de manifestar no mundo de matéria sua natureza Espiritual.

Desde os primórdios da criação, do átomo primeiro, o Criador nos concedeu, como espíritos, a missão de “espiritualizar” a matéria. O princípio inteligente do Universo, nessa proposta sagrada de evolução, teria na ligação imorredoura com o Criador, pelos laços do espírito, seu roteiro de segurança. Em verdade, caberia ao espírito ser “medianeiro” da vontade do Pai na “cocriação” do mundo das formas. (O Livro dos Espíritos, questões 25 e 132).

Porém, iniciado aos voos conscientes do livre arbítrio, vencendo os limites dos reinos inferiores, o homem, Espírito, ao invés de mergulhar-se na carne para espiritualizar-se, intentou materializar o Espírito. Negando a sua natureza essencial, embotando os sentidos espirituais de ligação com o Criador, imantou-se à escuridão inerte da carne, arraigado aos reflexos da vida animal. Instituiu o homem a vida carnal em detrimento da vida espiritual. Negou a imortalidade para estacionar-se na degradação da matéria. A escuridão, todavia, nunca existiu. Inquebrantáveis mantinham-se os laços do Espírito, elos luminosos de intermediação do Pai junto aos filhos encarcerados na carne. Por essa razão Emmanuel nos fala que a mediunidade foi sempre “a luz a se derramar sobre toda a carne” (O Consolador, q. 382); cordão luminescente de conexão com a nossa essência espiritual e com Espírito do Criador; clarão a derramar-se sobre o materialismo; apelo, constante e luminoso, a lembrar à miséria dos homens de carne: sois Espíritos imortais, filhos de Deus, sois a luz do mundo. Ainda sim persistiu o homem na ignorância, fazendo-se “medianeiro” de suas vontades, intentando, ingenuamente, materializar a luz divina da mediunidade.

Porém, nas fieiras da evolução, veio, “para o homem”, o Mestre Jesus, o médium por excelência. Aquele que se fez o Verbo encarnado, medianeiro fiel das vontades do Pai, estabeleceu aquilo que seria a glória mediúnica: o restabelecimento integral dos fios luminosos que nos ligam em espírito ao Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo. 10:30);“Eu sou a luz do mundo”(Jo. 8:12); ”Deus é Espírito e em espírito deve ser adorado” (Jo. 4:24). Estabelecia-se o caminho da mediunidade e da vida, que passaram a sinônimos com Jesus. Não mais era possível persistir a divisão entre a vida da carne e a vida espiritual. Não mais era possível servir a dois senhores. Era preciso viver a condição única, essencial e primeira de filhos do Criador: sermos intermediários, instrumentos fiéis, medianeiros da vontade de nosso Pai perante toda a criação.

A Doutrina Consoladora, nos veio mais tarde, relembrar essa esquecida mensagem aos homens. Não materializemos a mediunidade. Não tratemos a mediunidade como fenômeno vulgar a se enclausurar em salas, em reuniões fechadas, em seitas de todos os tempos. Mediunidade é a luz, o fio de conexão que convoca ao homem a relembrar, a cada instante, sua condição de Espírito frente as vicissitudes da carne. Não nos esqueçamos “o espírito é tudo!”. (cap. 9, Missionários da Luz).

Por isso, frente a mediunidade, em qualquer contato com em seus fenômenos diversos no mundo das formas, não nos esqueçamos de observar o Espírito, a luz, o essencial, a natureza daquilo que nos movimenta. Observemos se buscamos, em sinceridade, o Espírito imortal ou se buscamos a mediunidade como mais um fenômeno a nos encantar e favorecer os caprichos da carne; se buscamos, sutilmente, benefícios e favores imediatos ou futuros; se buscamos, despretensiosamente, fazer consultas de toda a ordem sobre assuntos mesquinhos; se buscamos, veladamente, a vaidade de trazer mensagens que não nos cabem o mérito; se buscamos, equivocadamente, fazer caridade aos mortos, esquecidos dos deveres morais para com os vivos; ou se estamos, verdadeiramente, buscando viver como Espíritos; buscando a glória mediúnica, que é efetivamente, se religar ao nosso Pai, restabelecendo os laços primeiros com sua amorosa vontade, seguindo os passos, do caminho, da verdade e da vida, traçados pelo médium por excelência: o Cristo Jesus.

Para encerrar, fiquemos com os fundamentos do Instrutor Alexandre (cap. 9, Missionários da Luz, André Luiz, FCX):

“A possibilidade de comerciar emoções com esferas invisíveis que vos rodeiam não representa, de modo algum, a realização espiritual imprescindível à edificação divina de cada um de nós, porque o problema da glória mediúnica não consiste em ser instrumento de determinadas Inteligências, mas em ser instrumento fiel da Divindade.”

“Colocai as expressões fenomênicas de vossos trabalhos em segundo plano, lembrando sempre que o Espírito é tudo!”

“Por que audácia incompreensível imaginais a realização sublime sem vos afeiçoardes ao Espirito de Verdade, que é o próprio Senhor? Ouvi-me, irmãos meus!…Se vos dispondes ao serviço divino, não há outro caminho senão Ele, que detém a luz da verdade e a fonte inesgotável da vida! Não existe outra porta para a mediunidade celeste…”

A Luz da Mediunidade, por Breno Henrique Leite Cota. Fonte: Jornal Correio Fraterno da CCHJ, nº 80, p. 5. Também disponível em www.cchj.org.br.

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Muitos acreditamos que o fenômeno mediúnico deva ocorrer com a naturalidade do desabrochar de uma rosa, apropriados da figura metafórica de autoria de Emmanuel. Defendemos que a “rosa” da mediunidade desabrocha, tão logo o fenômeno patenteia-se, após superadas as inibições psíquicas. A fala espontânea, a escrita ligeira e a mensagem escorreita  são sinonímias do desenvolvimento da faculdade. E sob este entendimento, eximimo-nos de avaliar de forma aprofundada as comunicações que nos chegam, caligrafadas ou ditadas, por médiuns atuantes e formados em nossas Casas Espíritas, acreditando ser falta de caridade turvar-lhes a “beleza” com análises, bom senso e razão. Chegamos, por vezes, a negar a condição de cursos preparatórios para médiuns, sob o discurso deturbado de que fariam esvaziar as reuniões, retardando o trabalho dos “bons espíritos no socorro aos irmãos do mundo invisível”. Alegamos que a “reforma íntima” e a ”boa vontade” são suficientes para que a “rosa” da mediunidade “enfeite os jardins do mundo”. Preocupados mais com o fenômeno, as voltas de uma mesa ou traçado em uma folha de papel, do que com a capacidade intelecto-moral do médium em experimentar-se na análise criteriosa das inteligências a quem serve nas experiências da vida, relegamos as bases doutrinárias às estantes da biblioteca. E sob este contexto, comum, vemos o superficialismo triunfar nas lides mediúnicas sob o jargão do naturalismo, da trivialidade e das observações simplórias dos conteúdos que chegam: “vede bem que não dizem nada de mal” (ver item 246, Da Obsessão, de O Livro dos Médiuns). Outra menção comum: “não se preocupe, os benfeitores espirituais é que sabem e conduzem os trabalhos”.

Assim, multiplicam-se reuniões mediúnicas para que se deixem desabrochar mediunidades, que por vezes, confundem-se com processos emocionais e espirituais delicados.

Realmente, a mediunidade ostensiva é faculdade natural, orgânica, que não pode ser induzida e incutida naqueles que não a tem.

Assim como a rosa não desabrocha em outras espécies que não a roseira.

E a rosa naturalmente irá desabrochar quer queiramos ou não.

Mas a qualidade da rosa, por mais esteja em sua natureza a beleza e o perfume, dependerá do clima, do solo, dos cuidados e do manejo a quer for submetida, incluindo a poda e o tutoramento.

Abster-nos de adubá-la, e mesmo podá-la ou tutora-la, a pretexto de preservar-lhe o naturalismo seria nos eximir da condição de partícipes da obra divina, negando os dons da experiência e da inteligência.

Assim como a rosa, o crescimento da criança é natural, e em seu espirito estão os germens das mais belas faculdades, mas faculta-lhe Deus os pais e professores para instruí-la, discipliná-la e educá-la na formação de caracteres.

Deixar que tudo e todos simplesmente expressem a sua natureza primeira, sem qualquer cuidado, é negar o dom infinito da evolução que se processa nas interações entre as partes ou condicionar que tudo e todos já somos perfeitos ou acabados.

Se a mediunidade fosse algo que devesse atender a simples questão de naturalidade, com pontos intocados, Kardec não teria analisado, comparado, e enviado a vários médiuns as mesmas perguntas, para com seu bom senso e razão verificar sua coerência, para codificação da nova Doutrina.

Assim também Kardec não teria refutado, sob a chancela da máxima de Erasto, “o que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa” (item 230, de O Livro dos Médiuns), as comunicações apócrifas que seguem discriminadas no capítulo 31 de O Livro dos Médiuns, muitas delas escorreitas quanto à forma e com conteúdos filosóficos profundos, sustentados em palavras veneráveis como “Jesus”, “Deus” e “caridade”.

Se pudéssemos nos eximir de uma análise crítica das mensagens que nos chegam São Luís não nos teria feito a exortação expressa no item 266 de O Livro dos Médiuns:

“Qualquer que seja a confiança legítima que vos inspirem os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, uma recomendação há que nunca será demais repetir e que deveríeis ter presente sempre na vossa lembrança, quando vos entregais aos vossos estudos: é a de pesar e meditar, é a de submeter ao cadinho da razão mais severa todas as comunicações que receberdes; é a de não deixardes de pedir as explicações necessárias a formardes opinião segura, desde que um ponto vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro.”

A falta de estudos basilares da essência da mediunidade com Jesus e Kardec, ainda nos faz crer que ser médium seja simples fenômenos de apassivar-se e entregar-se à execução e manifestações de toda ordem, sob a falsa pretensão de serviço caritativo e missão espiritual. Nos alheamos à recomendação de Kardec, manifesta no item 192 de O Livro dos Médiuns:

[…] a facilidade de execução é uma questão de hábito e que muitas vezes se adquire em pouco tempo, enquanto que a experiência resulta de um estudo sério de todas as dificuldades que se apresentam na prática do Espiritismo. A experiência dá ao médium o tato necessário para apreciar a natureza dos Espíritos que se manifestam, para lhes apreciar as qualidades boas ou más, pelos mais minuciosos sinais, para distinguir o embuste dos Espíritos zombeteiros, que se acobertam com as aparências da verdade. Facilmente se compreende a importância desta qualidade, sem a qual todas as outras ficam destituídas de real utilidade. O mal é que muitos médiuns confundem a experiência, fruto do estudo, com a aptidão, produto da organização física. Julgam-se mestres, porque escrevem com facilidade; repelem todos os conselhos e se tornam presas de Espíritos mentirosos e hipócritas, que os captam, lisonjeando-lhes o orgulho.

Essa conduta meticulosa do Codificador, fundamentada na busca pela natureza das manifestações, é corroborada por Sócrates, no item 197 de O Livro dos Médiuns ao afirmar que analisar “esses dois quadros [ a natureza dos médiuns e dos espíritos ] reúnem todos os princípios da Doutrina e contribuirão, mais do que o supondes, para trazer o Espiritismo ao verdadeiro caminho.”

É claro, portanto, que a verdade e o escolho da mediunidade não se encerram na naturalidade, mas na natureza do médium e dos espíritos com os quais se sintoniza, conforme esclarece-nos o espírito Sócrates. Sem recursos para conhecermos a nós mesmos (como já dizia o mesmo sábio na antiguidade), e por consequência aqueles a quem servimos de intermediários, a “mediunidade se perde na inutilidade”. (ver item 197 de o Livro do Médiuns”.)

Em outras palavras: formemos, pois, medianeiros. Não para servirem à naturalidade do fenômeno, mas para reconhecerem, pelo estudo sério, vivência e experimentação, a sua natureza íntima e daqueles com quem se comunicam.

Para tal é preciso o tutoramento do bom-senso, a poda do estudo e da disciplina e o adubo da vivência evangélica, manejados pelo jardineiro Consolador (Doutrina Espírita), sob as luzes do sol do Evangelho de Jesus. Somente assim, verdadeiramente, estaremos sustentados em solo seguro para sermos medianeiros do desabrochar, natural, da perfumosa rosa da mediunidade com Jesus.

Aos que se opuserem a esta forma “fria” de analisar a mediunidade, atentemos para a recomendação dos espíritos no tópico 28, do item 266 de O Livro dos Médiuns:

“Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é preciso, primeiro, que cada um saiba julgar-se a si mesmo. Muita gente há, infelizmente, que toma suas próprias opiniões pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e do falso; tudo o que lhes contradiga a maneira de ver, a suas ideias e ao sistema que conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a qualidade primacial para uma apreciação sã: a retidão do juízo. Disso, porém, nem suspeitam. É o defeito sobre que mais se iludem os homens.

“Mediunismo sem Evangelho é fenômeno sem Amor, dizem os Amigos Espirituais, sem Doutrina Espírita é fenômeno sem esclarecimento. Com Espiritismo, mas sem Evangelho, é realização incompleta […]. Com Evangelho e sem Espiritismo é, também, realização incompleta. Com Evangelho e Espiritismo é penhor de vitória espiritual, de valorização dos talentos divinos. Imprescindível, pois, a trilogia Evangelho-Espiritismo-Mediunidade.” (Martins Peralva, Mediunidade e Evolução, cap. 7.)

Naturalidade e natureza na mediunidade com Jesus (e Kardec), por Breno Henrique Leite Cota. Fonte: Jornal Correio Fraterno da CCHJ nº 78, p. 5. Também disponível em www.cchj.org.br.

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Opinião de Emmanuel

Nenhum espírito equilibrado em face do bom senso, que deve presidir a existência das criaturas, pode fazer apologia da loucura generalizada que adormece as consciências nas festas carnavalescas.

É lamentável que na época atual, quando os conhecimentos novos felicitam a mentalidade humana, fornecendo-lhes a chave maravilhosa dos seus elevados destinos, descerrando-lhes as belezas e os objetivos sagrados da Vida, se verifiquem excessos dessa natureza entre as sociedades que se pavoneiam com os títulos da civilização.

Enquanto os trabalhos e as dores abençoadas, geralmente incompreendidos pelos homens, lhes burilam o caráter e os sentimentos prodigalizando-lhes os benefícios inapreciáveis do progresso espiritual, a licenciosidade desses dias prejudiciais opera, nas almas indecisas e necessitadas do amparo moral dos outros espíritos mais esclarecidos, a revivescência de animalidades que só os longos aprendizados fazem desaparecer.

Há nesses momentos de indisciplina sentimental o largo acesso das forças da treva nos corações e às vezes toda uma existência não basta para realizar os reparos precisos de uma hora de insânia e de esquecimento do dever.

É estranho que as administrações e elementos de governos colaborem para que se intensifique a longa série de lastimáveis desvios de espíritos fracos, cujo caráter ainda aguarda o toque miraculoso da dor para aprender as grandes verdades da vida.

Enquanto há miseráveis que estendem as mãos súplices, cheios de necessidades e de fome, sobram as fartas contribuições para que os salões se enfeitem e se intensifique o olvido de obrigações sagradas por parte das almas cuja evolução depende do cumprimento austero dos deveres sociais e divinos.

Ação altamente meritória seria a de empregar todas as verbas consumidas em semelhantes festejos na assistência social aos necessitados de um pão e de um carinho.

Ao lado dos mascarados da pseudo-alegria, passam os leprosos, os cegos, as crianças abandonadas, as mães aflitas e sofredoras.

Por que protelar essa ação necessária das forças conjuntas dos que se preocupam com os problemas nobres da vida, a fim de que se transforme o supérfluo na migalha abençoada de pão e de carinho que será a esperança dos que choram e sofrem?

Que os nossos irmãos espíritas compreendam semelhantes objetivos de nossas despretensiosas opiniões, colaborando conosco, dentro de suas possibilidades, para que possamos reconstituir e reedificar os costumes para o bem de todas as almas.

É incontestável que a sociedade pode, com o seu livre-arbítrio coletivo, exibir superfluidades e luxos nababescos, mas, enquanto houver um mendigo abandonado junto de seu fastígio e de sua grandeza, ela só poderá fornecer com isso um eloquente atestado de sua miséria moral.

Mensagem ditada pelo Espírito Emmanuel ao médium Francisco Cândido Xavier em Julho de 1939 e publicado pela FEB em fevereiro de 1987 na Revista Reformador.

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A palavra exegese é oriunda do grego exegeomai, exegeses. O ex tem o sentido de retirar, derivar, ex-trair, ex-ternar, ex-teriorizar, ex-por; e, hegeisthai o de conduzir, guiar.

Movido por este propósito o exegeta espírita-cristão, quando se detiver sobre o estudo de uma obra que originalmente fora escrita em outro idioma e data recuada no tempo, deve dedicar especial atenção ao exame da tradução da língua-mãe para o vernáculo.

A informação se se trata a tradução de uma tradução literal ou de uma tradução como operação linguística e literária ou ainda como substituição e produção de significados, é importante para situá-lo dentro da obra e lhe permitir uma melhor compreensão do espírito do texto, ou melhor, da ideia que, efetivamente, deseja transmitir o autor.

Não diremos que um ou outro estilo é o melhor ou mais adequado, pois, a bem da verdade, todos o são! Nosso objetivo, com estas breves linhas, é convidá-lo, você leitor amigo e você estudioso que ora nos lê, para, sempre que possível, caso exista, compulsar outra(s) tradução(ões) da obra que pretende examinar. Esta verificação pode contribuir de forma decisiva para uma mais alargada compreensão do tema em estudo.

Ilustrando a tese acima exposta, vejamos, a título de exemplo, a questão número 5, de O Livro dos Espíritos, isto porque algumas traduções, como a de Guillon Ribeiro, utiliza o vocábulo (adjetivo) instintivo, e outras, como as de Salvador Gentile e Herculano Pires, utilizam, no lugar do anterior, o vocábulo intuitivo. Citaremos estas três por considerá-las mais difundidas e utilizadas, sem, em nada, desmerecer todas as demais.

Deter-nos-emos apenas na pergunta, ressalvando que também as traduções da resposta merecem a mesma análise em razão do mesmo princípio.

Primeiro, a tradução de Guillon Ribeiro:

5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus?

— A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma consequência do princípio – não há efeito sem causa.

Por segundo, a tradução de Salvador Gentile:

5. Que consequência se pode tirar do sentimento intuitivo que todos os homens carregam em si mesmos da existência de Deus?

— Que Deus existe; porque de onde lhe viria esse sentimento se ele não repousasse sobre nada? É ainda uma consequência do princípio de que não há efeito sem causa.

E, por terceiro, a tradução de Herculano Pires:

5. Que consequência podemos tirar do sentimento intuitivo, que todos os homens trazem consigo, da existência de Deus?

— Que Deus existe; pois de onde lhes virá esse sentimento, se ele não se apoiasse em nada? E uma consequência do princípio de que não há efeito sem causa.

Tal cuidado não é simples capricho e tampouco excesso de zelo. É, sim, o produto de um firme e responsável desejo de bem compreender a verdadeira essência do ensinamento transmitido. Ademais, no caso em exame – o estudo sistematizado de O Livro dos Espíritos –, para bem compreender a resposta, indispensável, por óbvio, primeiro, compreender a pergunta: afinal, o que Allan Kardec desejava, de fato, saber? Relembremos a questão número 5: “Que consequência se pode tirar do sentimento ‘instintivo/intuitivo’ que todos os homens ‘carregam em si/trazem em si/carregam consigo’ mesmos da existência de Deus?”.

O Original francês

Busquemos no original francês a redação da aludida questão:

5. Quelle conséquence peut-on tirer du sentiment intuitif que tous lês hommes portent en eux-mêmes de l’existence de Dieu?

— Que Dieu existe; car d’où lui viendrait ce sentiment s’il ne reposait sur rien? C’est encore une suite du principe qu’il n’y a pas d’effet sans cause.

Segundo o dicionário Michaelis da língua francesa, intuitif se traduz por intuitivo. Eis a tradução ipsis litteris:

5. Que consequências podem ser extraídas do sentimento intuitivo que todos os homens se vestirem da existência de Deus?

— Deus existe, porque de onde ele se sentiria se ele não se baseou em alguma coisa? Esta é outra consequência do princípio de que não há efeito sem causa.

A tradução literal dá conta, portanto, de que o vocábulo utilizado por Kardec é intuitivo; já a tradução como substituição e produção de significados, o traduz por instintivo.

A partir deste ponto, a exegese da questão em exame nos remete, dentre outros, ao estudo do significado (semântica) de intuitivo (ou intuição) e instintivo (ou instinto): são palavras sinonímias ou homonímias? Foram utilizadas segundo a conotação ou denotação?

O Significado das palavras intuição e instinto

Vejamos também, para ampliar a nossa análise, o significado dos vocábulos intuição e instinto.

Segundo o dicionário Aurélio, a palavra intuição tem o seguinte significado: s.f. Conhecimento claro, direto, imediato da verdade sem o auxílio do raciocínio. / Pressentimento; faculdade de prever, de adivinhar: ter a intuição do futuro. / Visão clara que os santos têm de Deus; intuitivo: adj. Que se tem por intuição: conhecimento intuitivo. / Dotado de intuição: natureza intuitiva. / Que age por intuição.

Ainda segundo o Aurélio, a palavra instinto tem o seguinte significado: s.m. Impulso natural: instinto de conservação. / Primeiro movimento que dirige o homem e os animais em seu procedimento. / Tendência; aptidão inata. / loc. adv. Por instinto, por uma espécie de intuição; sem reflexão: ele agiu por instinto; instintivo: adj. Que nasce do instinto: movimento instintivo.

Por sua vez, para o Dicionário Espírita, a palavra intuição tem o seguinte significado: Intuição – [do latim intueri + -ção] – 1. Ato de ver, perceber, discernir de forma clara ou imediata. 2. Ato ou capacidade de pressentir. 3. Percepção na sua plenitude de uma verdade que normalmente não se chega por meio da razão ou do conhecimento discursivo ou analítico. Ver: Instinto.

E, ainda segundo o Dicionário Espírita, a palavra instinto tem o seguinte significado: Instinto – [do latim instinctu] – 1. Tendência natural; aptidão inata. 2. Força de origem biológica, própria do homem e dos animais superiores, que atua de modo inconsciente, espontâneo, automático, independente de aprendizado. 3. Intuição; inspiração. 4. Espécie de inteligência rudimentar que dirige os seres vivos em suas ações, à revelia de sua vontade e no interesse de sua conservação. O instinto torna-se inteligência quando surge a deliberação. Pelo instinto, age-se sem raciocinar; pela inteligência, raciocina-se antes de agir. No homem, confundem-se frequentemente as ideias instintivas com as ideias intuitivas. Estas últimas são as que ele hauriu, quer no estado de desdobramento, quer nas existências anteriores e das quais ele conserva uma vaga lembrança.

Se as ideias intuitivas são aquelas que o espírito hauriu em existências anteriores e das quais conserva a lembrança e se o instinto é uma força de ordem biológica em que se age sem raciocinar, qual vocábulo desejou Kardec empregar?

Entretanto, não interessa apenas saber qual o vocábulo quis empregar o Codificador: se intuitivo ou instintivo. Notemos que as traduções mencionadas acima fazem também distinção nos termos trazem em si, carregam em si e trazem consigo e a tradução ipsis litteris, se vestirem.

Sobre estes últimos não nos deteremos por considerar que conseguimos transmitir a ideia do exame minucioso do texto quando destacamos os adjetivos intuitivo e instintivo. Trata-se do mesmo princípio e do mesmo método. Diremos apenas que trazer em si, carregar em si e trazer consigo ou ainda, se vestir pode ensejar múltiplas interpretações. Ao exegeta, atento e cuidadoso, nenhum detalhe deve passar despercebido e não merecer a devida e necessária análise: toda palavra, expressão, o sujeito da ação, os tempos verbal e cronológico, o lugar (espaço geograficamente considerado), etc., devem ser objetos de atenção e cuidadoso exame.

O nosso objetivo com este breve comentário não é o de concluir por uma ou por outra palavra, ou uma ou outra expressão, embora já tenhamos formado a nossa opinião particular. O nosso objetivo, com toda vênia, é o de aguçar, no leitor amigo, o desejo de aprofundar, no maior nível de detalhe possível, o exame da matéria a que se proponha estudar, em especial, da Doutrina Espírita e do Evangelho de Jesus.

Ao exegeta espírita-cristão está reservado, portanto, o papel de buscar extrair o “espírito da letra”, de sair da superficialidade, de mergulhar nas entrelinhas, de ir cada vez mais fundo e de contribuir, assim, para a verdadeira compreensão e para a plena vivência dos ensinamentos transmitidos por Jesus e seus prepostos diretos, os Espíritos Superiores. Em suma: fazer luz sobre a luz!

A Questão da tradução na exegese espírita, por José Márcio de Almeida. Publicado no site do Instituto Espírita de Estudos Filosóficos – IEEF:  http://www.ieef.org.br/wp-content/uploads/2015/04/A-quest%C3%A3o-da-tradu%C3%A7%C3%A3o-na-exegese-esp%C3%ADrita.pdf

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Índice

Uma torrente infindável de mágoas e sentimentos contraditórios leva contingentes de seres humanos exaustos a formar um séquito de sofredores à procura de socorro psiquiátrico ou psicológico, multiplicando o volume das análises e divãs em consultórios e clínicas. Quantitativo crescente de casos aporta aos templos religiosos, num desesperado apelo para a fé como última saída para uma coletânea de ressentimentos, num intricado labirinto de angústias e depressões.

Em grande parte, é a dificuldade nossa de cada dia de desculpar, de desculpar-se, de começar de novo. Dificuldade que emerge dos relacionamentos diários, tornando a vida uma administração de conflitos – na família, na escola, no trabalho, no trânsito, no lazer. Até na Casa Espírita.

A Ciência vem fazendo importantes constatações na área do comportamento humano, levando pesquisadores a formular conceitos de extrema relevância, capazes de alterar substanciosamente a qualidade de vida de indivíduos, famílias e grupos sociais. Revolucionando diagnósticos e substituindo terapias convencionais, conduzindo pacientes a trocar prolongados tratamentos alopáticos por terapias inovadoras, os níveis do conhecimento indicam a mudança de hábitos como pré-requisito terapêutico à erradicação de males de etiologia complexa. Sem externar crenças, a maioria dos pesquisadores evita revelar convicções religiosas de modo a dar às conclusões caráter de cunho estritamente científico, mas acabam por fornecer subsídios valiosos ao argumento da religiosidade corrente.

Estudiosos de Stanford relataram valiosas observações, levando o cientista Fred Luskin a tratar do assunto com admirável propriedade quando torna pública parte desse importante acervo:[1]

“Estudos científicos mostram com clareza que o aprendizado do perdão é bom para a saúde e bem-estar – bom para a saúde mental e, de acordo com dados recentes, bom para a saúde física.

“(…) Definitivamente, o passado é passado.

“(…) A doença cardíaca é a causa mortis principal tanto para homens quanto para mulheres.

“(…) A raiva provoca a liberação de substâncias químicas associadas ao estresse, que alteram o funcionamento do coração e causam o estreitamento das artérias coronárias e periféricas.

“(…) O perdão é uma experiência complexa, que modifica o nível da autoconfiança, de ações, pensamentos, emoções e sentimentos espirituais de pessoa vítima de afronta. Acredito que aprender a perdoar os sofrimentos e ressentimentos da vida seja um passo importante para nos sentirmos mais esperançosos e conectados espiritualmente, e menos deprimidos.”

Pasma o relato circunstanciado do Dr. Fred Luskin sobre algo que não é estranho ao meio espírita:[2]

“Imagine que o que você vê em sua mente está sendo visto numa tela de tevê.

(…) Pelo seu controle remoto você determina o que se apresenta na sua televisão. Imagine agora que cada um tenha um controle remoto para mudar o canal que está vendo na mente.

(…) Desse ponto de vista, a mágoa pode ser vista como um controle remoto travado no canal da mágoa.”

O raciocínio do cientista faz-nos rememorar a rica literatura advinda através de Chico Xavier, da valiosa colaboração de André Luiz:[3]

“(…) Estupefato, comecei a divisar formas movimentadas no âmbito da pequena tela sombria. Surgiu uma casa modesta de cidade humilde. Tive a impressão de transpor-lhe a porta. Lá dentro, um quadro horrível e angustioso. Uma senhora de idade madura, demonstrando crueldade impassível no rosto, lutava com um homem embriagado. – ‘Ana! Ana! pelo amor de Deus! não me mates! – dizia ele, súplice, incapaz de defender-se. – ‘Nunca! Nunca te perdoarei! (…)’.”

Com toda a sua dinâmica de desvendar o conhecimento a partir de observação repetida e sistemática, a ciência experimental vem galgando passos importantes na disseminação do saber, dando saltos quantitativos gigantescos, ora muito objetiva e rapidamente, ora muito lenta e gradualmente. E a variante dos novos passos que são dados tem a vontade como mola propulsora. Quando deseja, o homem caminha rápido, muito rápido; quando não, demora-se nas enseadas da vida, às vezes evitando tratar abordagens incômodas ou de futuro incerto, postergando o transcendente para outra instância, receoso de chegar a conclusões embaraçosas, que possam implicar em mudanças importantes nos valores cultuados.

A ciência e a religião tocam-se nas linhas infinitas do tempo.

O Meigo Nazareno já havia recomendado o perdão na sua mensagem consoladora ao colégio apostólico, aos discípulos, e, em todos os conflitos, externava generosidade e compreensão, procurando substituir a ofensa pela desculpa, a intransigência pela tolerância, a mágoa pelo amor. Recomendara a um dileto amigo que desculpasse ilimitadas vezes, como que procurando dizer a ele que o perdão age como medicamento profilático, vacinal, capaz de substituir vincos na fronte cerrada e ameaçadora pela amena descontração de um riso relaxante e confortador.[4] Acostumado a observar a infantilidade de conflituosos contemporâneos, desaconselhava o litígio, endereçando as querelas a soluções que esvaziam as disputas.[5] Como quem quisesse nos dizer que a maioria dos aborrecimentos do dia-a-dia passariam despercebidos, se pudéssemos as mais das vezes dizer ao semelhante que nos desafia:

– Estou errado, enganei-me. Não faria de novo.

Habituados a não reconhecer o próprio erro, sempre empenhamos recursos verbalísticos persuasivos, no afã de evitar o mea culpa que deixaria o assunto exaurir-se de per si. Opta-se por tentar identificar o erro no semelhante ou descobrir nele a contribuição para a contenda, crendo na sua dissimulação, capaz de aviltar a verdade para esquivar-se de qualquer transgressão.

De Pedro vem observação interessante, que não cogita da contenda, dotada de senso de oportunidade, atualíssima na sociedade em que estamos inseridos, onde o conflito ainda é a via primeira para solucionar questões do dia-a-dia:[6]

(…) Tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre a multidão de pecados.

Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem reclamar. Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre…

Desculpar não é aceitar o erro que alguém pratica. Mas reconhecer o erro, nosso ou do nosso semelhante, sem se ofender. Sem se magoar. Sem ter que sentir de novo, no dia seguinte, a contrariedade da véspera: portanto, sem se ressentir. É aceitar as pessoas, e a nós mesmos, sem ficarmos presos aos acontecimentos indesejados da vida em sociedade. É admitir que “o passado é passado”, como afirma Fred Luskin. Ou o próprio Emmanuel quando escreveu: “Agora, eis o momento da melhora que procuras. (…) Ontem não mais existe (…).”[7]

O amor cobre a multidão de pecados, por Antônio Carmo Rubatino.

Fonte: Revista Reformador, Outubro de 2005, p. 32-33.

[1] O Poder do Perdão. Fred Luskin. Editora Novo Paradigma, cap. 7.

[2] Idem, ibidem, cap. 9

[3] Os Mensageiros. Francisco C. Xavier, pelo Espírito André Luiz, cap. 23, p. 147, Ed. FEB.

[4] Mateus, 18: 21-22.

[5] Mateus, 5: 23-24.

[6] I Pedro, 4: 8-11.

[7] Espera Servindo, pelo Espírito Emmanuel, GEEM.

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Moradores de rua na Praça Santo Antônio, bairro Jaraguá, região da Pampulha, em Belo Horizonte(MG)

Moradores de rua na Praça Santo Antônio, bairro Jaraguá, região da Pampulha, em Belo Horizonte(MG)

Em resposta à pergunta formulada por Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, de como entendia Jesus a palavra caridade (questão 886), estes, os Espíritos, responderam: “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas”. Os Espíritos também estabeleceram por divisa máxima da Doutrina Espírita, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o enunciado de que “Fora da caridade não há salvação” (capítulo XV).

Esta divisa é a balizadora de todas as iniciativas de trabalho no bem. Os Espíritos que coordenam, do plano espiritual, as atividades de intercâmbio mediúnico são concordes em afirmar que o medianeiro deve ser e estar operoso; os que se dedicam às atividades de evangelização, idem; os que se vinculam às atividades doutrinárias, do mesmo modo.

De um modo geral, a Casa Espírita deve ser o celeiro que permita, à todos os corações que a ela recorrem, a bendita oportunidade de se evangelizar e, em assim o sendo, de se esclarecer e de se consolar.

Evangelização, esclarecimento e consolação somente virão com o trabalho no bem e em favor dos menos favorecidos, dos ainda caídos pelos caminhos, dos que ainda gravitam em faixas vibratórias inferiores e que envergam padrões psíquicos em desalinho e dos que ainda não prepararam o solo interior para permitir e fazer germinar a semente já lançada pelo Semeador maior: Jesus.

Não obstante, todos podem se mobilizar em grupos menores, formados por familiares ou amigos (da Casa Espírita, do trabalho, do bairro onde residam, etc.), para, organizando-se e estruturando-se, vivenciarem as doces experiências e colherem os aprendizados que o trabalho de assistência fraterna, desenvolvido com Jesus, traz aos corações.

É uma destas iniciativas que desejamos celebrar e dividir com os nossos leitores.

Desde o final do mês de junho deste ano – para ser exato, desde o dia 29 –, que um grupamento familiar se formou para exercitar e desenvolver várias atividades de assistência fraterna. Refiro-me à “Cozinha Fraterna Irmão Lázaro”.

Atuando na região dos bairros Suzana, Dona Clara, Santa Rosa, Jaraguá, Liberdade e Indaiá, na região da Pampulha, em Belo Horizonte, a “Cozinha Fraterna Irmão Lázaro”, a cada noite de segunda-feira, em caravana, visita, nos bairros acima citados, vários pontos em que se aglomeram companheiros que estão vivenciando as duras provas da miséria e da solidão e alguns outros, somando-se a isso, dolorosas expiações.

Ao alimento e ao agasalho para o corpo, os tarefeiros empenham-se em levar àqueles corações, à luz dos ensinamentos trazidos pelos Espíritos, o Pão Espiritual, Jesus, por meio de seu Evangelho de luz.

De início o singelo pãozinho com manteiga e o leite achocolatado, propiciamente indicado para as noites frias do inverno. Planejando para depois, para as noites frescas da primavera e quentes de verão, pãozinho acompanhado do refresco. O passo seguinte será a implantação da sopa fraterna.

O irmão Lázaro (Lázaro José Alves, 1940 – 2004), patrono do grupo, foi, enquanto encarnado, o elo entre os seus integrantes, tendo dado vivas demonstrações de elevação moral, de verdadeira amizade, de paternidade responsável e de superação ao fascínio exercido pela matéria densa.

De nossa parte, fazendo coro aos irmãos Maria Raquel e José Maria, da cidade de Cláudio(MG), rogamos que Jesus, o Meigo e Divino Amigo, “infunda em cada um [dos tarefeiros da “Cozinha Fraterna Irmão Lázaro”] o espírito de luz, para continuarem a fazer o bem e amar a todos que de vocês se aproximarem”.

Cozinha Fraterna Irmão Lázaro, por José Márcio de Almeida.

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O Céu e o Inferno 150 Anos

Sobre o livro O Céu e o Inferno, escreveu José Herculano Pires:

Lendo-se este livro com atenção, vê-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei; na segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários, o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia. Estamos ante um tribunal divino. Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.

A 30 de setembro de 1863, como se pode ver em Obras Póstumas, Kardec recebeu dos Espíritos Superiores este aviso: “Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo e do uso que fez de sua autoridade; enfim, do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos.” Esse julgamento começava com a preliminar constituída pelo O Evangelho Segundo o Espiritismo e devia continuar com O Céu e o Inferno. Dentro de dois anos, em seu número de setembro de 1865, a Revista Espírita publicaria em sua seção bibliográfica a notícia do lançamento do quarto livro da Codificação Espírita: O Céu e o Inferno. Faltava apenas A Gênese para completar a obra da Codificação da III Revelação.

Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram publicados antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado Da Apreensão da Morte, vigorosa peça de acusação, no número de janeiro de 1865, e o capítulo Onde é o Céu, no número de março do mesmo ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que ambos pertenciam a uma “nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente”.

Em setembro a obra já aparece anunciada como à venda. Kardec declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu conteúdo. Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro com o mesmo título com que saíra e o segundo com o título reduzido para O Céu.

Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas fundamentais da teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não formal, conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-la à custa de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo. Como ciência de observação a nova doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações e denunciando os absurdos a que chegara a imaginação teológica na formulação dos dogmas cristãos.

O primeiro capítulo de O Céu e o Inferno intitula-se O Futuro e o Nada. Esse título coloca o leitor em face das duas alternativas fundamentais do espírito. Kardec se revela ao mesmo tempo cartesiano e shakespeariano. É cartesiano quando propõe esta premissa lógica, de agudo realismo: vivemos, pensamos, agimos; isto é positivo; não é menos certo que morremos. É shakespeariano quando evoca o dilema: ser ou não ser, eis a alternativa. Mas ao mesmo tempo se opõe, com a antecedência de mais de um século, à tese do nada que surgirá ali mesmo, na França, com a filosofia existencial de Jean-Paul Sartre, o teórico da frustração e da nadificação do homem.

O que mais impressiona neste processo jurídico é a objetividade da acusação. Não estamos diante de um tribunal romano, onde as normas do Direito se subordinam às exigências imediatistas do Império, mas perante um tribunal grego do mundo socrático, onde o juiz implacável pergunta a todo instante: o que é isso? E exige definição precisa segundo as leis da maiêutica. Estas comparações não são retóricas, são simplesmente históricas. O processo lógico de Kardec segue as linhas dialéticas da busca socrática da verdade, segundo a exposição platônica. O juiz que pontifica neste tribunal não enverga a toga impura de Anito, mas a túnica de Platão.

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã.

Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da humanidade no servedouro medieval levou a natureza humana a um retrocesso histórico só comparável ao do nazi-fascismo em nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram-se com o retrocesso do homem nos anos 40 do nosso século e puseram em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido este livro de Kardec saberiam que a evolução não se processa em linha reta, mas em ascensão espiralada. Os teólogos medievais estavam racional e moralmente atrasados em relação aos teólogos gregos porque representavam uma vasta camada de população ainda não atingida pelas luzes da cultura helênica. A evolução do homem na Terra está sujeita às vicissitudes da superposição periódica de camadas populacionais inferiores que precisam aflorar na superfície cultural para se beneficiarem. A queda do Império Romano foi um momento de superposição dos bárbaros, que precisavam abeberar-se na cultura clássica. No episódio aparentemente inexplicável do nazi-fascismo tivemos um novo afloramento dos instintos bestiais do homem. Esses instintos ainda estão presentes em nosso mundo de pós-nazismo, mas vão sendo caldeados na ebulição cultural dos nossos dias. Nenhuma imagem explicaria melhor essa situação que a do caldeirão medieval, formulada por Wilhelm Dilthey.

Vemos assim que este livro de Kardec tem muito para ensinar, não só aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência neo-pagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo, como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo. O processo espírita se desenvolve na linha de sequência do processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou. Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em nosso tempo. A leitura e o estudo sistemático deste livro se impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente desejam compreender o sentido da vida humana na Terra.

Mesmo entre os espíritas este livro é quase desconhecido. A maioria dos que o conhecem nunca se inteirou do seu verdadeiro significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objeto não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo. O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida.

Como ciência de observação o Espiritismo nos oferece a análise de Kardec na primeira parte do volume. Como ciência de pesquisa nos oferece a segunda parte, em que vemos Kardec investigar objetivamente a situação dos espíritos após a morte. Como ele acentua incessantemente, as penas e recompensas, que são as consequências naturais do comportamento humano na Terra, não aparecem aqui como alegorias ou suposições elaboradas pela mente, mas como o resultado da pesquisa mediúnica, da investigação direta da situação dos espíritos através de suas próprias revelações. E essas revelações não são gratuitas nem colhidas ao acaso, mas provocadas pelo experimentador através de anos de trabalho árduo e paciente. Mais de um século depois de realizado, esse trabalho é hoje sancionado pelas investigações recentes, não só no meio espírita mas também no campo das investigações parapsíquicas.

A imparcialidade de Kardec e o seu amor pela pesquisa, a sua confiança na eficiência da investigação científica transparecem a cada instante. Charles Richet teve razão ao reconhecer a vocação científica do Codificador do Espiritismo. Dando ao inferno e ao céu os seus contornos reais, com base nos resultados de sua investigação, Kardec não repudia o dogma do purgatório, o mais suspeito da estrutura teológica arbitrária porque introduzido tardiamente no sistema dogmático católico, mas aceita-o e justifica-o. O purgatório é a Terra, o lugar determinado e circunscrito em que purgamos as nossas imperfeições, encarnados ou desencarnados.

A doutrina teológica dos anjos e demônios é submetida também à prova dupla da análise racional e da pesquisa científica. A conclusão é límpida e certa: somos demônios quando estamos saindo da animalidade para a espiritualização e somos anjos quando estamos saindo da humanidade para a angelitude. Mas isso não é uma idéia, uma hipótese, o produto de uma elocubração mental ou de uma interpretação arbitrária de textos sagrados. É o resultado da observação e da pesquisa. Milhares de criaturas espirituais observadas, interrogadas, submetidas à experiência mediúnica, forneceram os tipos psicológicos e morais da escala espírita, numa verdadeira classificação psíquica aplicável não só aos espíritos, mas também à tipologia humana.

A importância deste livro é maior do que realmente se pensa. No tocante à Teologia, como procuramos demonstrar em várias notas ao texto, O Céu e o Inferno antecipou de mais de um século as transformações que ora se operam no seio das várias igrejas. Se os teólogos, que pretendem ser homens mais do que homens, como Descartes os classificou, pudessem ter a humildade suficiente para consultá-lo, encontrariam nestas páginas a solução dos seus mais angustiantes problemas.

São Paulo, 30 de julho de 1973.

José Herculano Pires

(LAKE Editora)

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