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Archive for outubro \24\UTC 2015

Filosofia Espírita do Direito_Capa

O livro Filosofia Espírita do Direito, concorre ao 6º Prêmio Clube de Autores de Literatura Contemporânea.

Para votar é simples e fácil. Basta acessar o link abaixo:

http://premio.clubedeautores.com.br/web/site_premio/votar.php?id=170889

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Índice

Uma torrente infindável de mágoas e sentimentos contraditórios leva contingentes de seres humanos exaustos a formar um séquito de sofredores à procura de socorro psiquiátrico ou psicológico, multiplicando o volume das análises e divãs em consultórios e clínicas. Quantitativo crescente de casos aporta aos templos religiosos, num desesperado apelo para a fé como última saída para uma coletânea de ressentimentos, num intricado labirinto de angústias e depressões.

Em grande parte, é a dificuldade nossa de cada dia de desculpar, de desculpar-se, de começar de novo. Dificuldade que emerge dos relacionamentos diários, tornando a vida uma administração de conflitos – na família, na escola, no trabalho, no trânsito, no lazer. Até na Casa Espírita.

A Ciência vem fazendo importantes constatações na área do comportamento humano, levando pesquisadores a formular conceitos de extrema relevância, capazes de alterar substanciosamente a qualidade de vida de indivíduos, famílias e grupos sociais. Revolucionando diagnósticos e substituindo terapias convencionais, conduzindo pacientes a trocar prolongados tratamentos alopáticos por terapias inovadoras, os níveis do conhecimento indicam a mudança de hábitos como pré-requisito terapêutico à erradicação de males de etiologia complexa. Sem externar crenças, a maioria dos pesquisadores evita revelar convicções religiosas de modo a dar às conclusões caráter de cunho estritamente científico, mas acabam por fornecer subsídios valiosos ao argumento da religiosidade corrente.

Estudiosos de Stanford relataram valiosas observações, levando o cientista Fred Luskin a tratar do assunto com admirável propriedade quando torna pública parte desse importante acervo:[1]

“Estudos científicos mostram com clareza que o aprendizado do perdão é bom para a saúde e bem-estar – bom para a saúde mental e, de acordo com dados recentes, bom para a saúde física.

“(…) Definitivamente, o passado é passado.

“(…) A doença cardíaca é a causa mortis principal tanto para homens quanto para mulheres.

“(…) A raiva provoca a liberação de substâncias químicas associadas ao estresse, que alteram o funcionamento do coração e causam o estreitamento das artérias coronárias e periféricas.

“(…) O perdão é uma experiência complexa, que modifica o nível da autoconfiança, de ações, pensamentos, emoções e sentimentos espirituais de pessoa vítima de afronta. Acredito que aprender a perdoar os sofrimentos e ressentimentos da vida seja um passo importante para nos sentirmos mais esperançosos e conectados espiritualmente, e menos deprimidos.”

Pasma o relato circunstanciado do Dr. Fred Luskin sobre algo que não é estranho ao meio espírita:[2]

“Imagine que o que você vê em sua mente está sendo visto numa tela de tevê.

(…) Pelo seu controle remoto você determina o que se apresenta na sua televisão. Imagine agora que cada um tenha um controle remoto para mudar o canal que está vendo na mente.

(…) Desse ponto de vista, a mágoa pode ser vista como um controle remoto travado no canal da mágoa.”

O raciocínio do cientista faz-nos rememorar a rica literatura advinda através de Chico Xavier, da valiosa colaboração de André Luiz:[3]

“(…) Estupefato, comecei a divisar formas movimentadas no âmbito da pequena tela sombria. Surgiu uma casa modesta de cidade humilde. Tive a impressão de transpor-lhe a porta. Lá dentro, um quadro horrível e angustioso. Uma senhora de idade madura, demonstrando crueldade impassível no rosto, lutava com um homem embriagado. – ‘Ana! Ana! pelo amor de Deus! não me mates! – dizia ele, súplice, incapaz de defender-se. – ‘Nunca! Nunca te perdoarei! (…)’.”

Com toda a sua dinâmica de desvendar o conhecimento a partir de observação repetida e sistemática, a ciência experimental vem galgando passos importantes na disseminação do saber, dando saltos quantitativos gigantescos, ora muito objetiva e rapidamente, ora muito lenta e gradualmente. E a variante dos novos passos que são dados tem a vontade como mola propulsora. Quando deseja, o homem caminha rápido, muito rápido; quando não, demora-se nas enseadas da vida, às vezes evitando tratar abordagens incômodas ou de futuro incerto, postergando o transcendente para outra instância, receoso de chegar a conclusões embaraçosas, que possam implicar em mudanças importantes nos valores cultuados.

A ciência e a religião tocam-se nas linhas infinitas do tempo.

O Meigo Nazareno já havia recomendado o perdão na sua mensagem consoladora ao colégio apostólico, aos discípulos, e, em todos os conflitos, externava generosidade e compreensão, procurando substituir a ofensa pela desculpa, a intransigência pela tolerância, a mágoa pelo amor. Recomendara a um dileto amigo que desculpasse ilimitadas vezes, como que procurando dizer a ele que o perdão age como medicamento profilático, vacinal, capaz de substituir vincos na fronte cerrada e ameaçadora pela amena descontração de um riso relaxante e confortador.[4] Acostumado a observar a infantilidade de conflituosos contemporâneos, desaconselhava o litígio, endereçando as querelas a soluções que esvaziam as disputas.[5] Como quem quisesse nos dizer que a maioria dos aborrecimentos do dia-a-dia passariam despercebidos, se pudéssemos as mais das vezes dizer ao semelhante que nos desafia:

– Estou errado, enganei-me. Não faria de novo.

Habituados a não reconhecer o próprio erro, sempre empenhamos recursos verbalísticos persuasivos, no afã de evitar o mea culpa que deixaria o assunto exaurir-se de per si. Opta-se por tentar identificar o erro no semelhante ou descobrir nele a contribuição para a contenda, crendo na sua dissimulação, capaz de aviltar a verdade para esquivar-se de qualquer transgressão.

De Pedro vem observação interessante, que não cogita da contenda, dotada de senso de oportunidade, atualíssima na sociedade em que estamos inseridos, onde o conflito ainda é a via primeira para solucionar questões do dia-a-dia:[6]

(…) Tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre a multidão de pecados.

Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem reclamar. Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre…

Desculpar não é aceitar o erro que alguém pratica. Mas reconhecer o erro, nosso ou do nosso semelhante, sem se ofender. Sem se magoar. Sem ter que sentir de novo, no dia seguinte, a contrariedade da véspera: portanto, sem se ressentir. É aceitar as pessoas, e a nós mesmos, sem ficarmos presos aos acontecimentos indesejados da vida em sociedade. É admitir que “o passado é passado”, como afirma Fred Luskin. Ou o próprio Emmanuel quando escreveu: “Agora, eis o momento da melhora que procuras. (…) Ontem não mais existe (…).”[7]

O amor cobre a multidão de pecados, por Antônio Carmo Rubatino.

Fonte: Revista Reformador, Outubro de 2005, p. 32-33.

[1] O Poder do Perdão. Fred Luskin. Editora Novo Paradigma, cap. 7.

[2] Idem, ibidem, cap. 9

[3] Os Mensageiros. Francisco C. Xavier, pelo Espírito André Luiz, cap. 23, p. 147, Ed. FEB.

[4] Mateus, 18: 21-22.

[5] Mateus, 5: 23-24.

[6] I Pedro, 4: 8-11.

[7] Espera Servindo, pelo Espírito Emmanuel, GEEM.

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Sementes de Paz

A AJE-BRASIL (Associação Jurídico-Espírita do Brasil), ao final dos trabalhos do 1º Congresso Jurídico-Espírita Brasileiro, ocorrido de 05 a 07 de setembro de 2015, em Brasília, que se desenvolveu sob o tema “Desafios éticos-morais: caminhos para os avanços público e privado,” apresentou as seguintes conclusões:

1. O humanismo, como valor jurídico, está fundado no princípio da dignidade da pessoa humana, que, em essência, se traduz pelo respeito ao próximo como a si mesmo;

2. É preciso envidar esforços para que a legislação humana caminhe em direção aos paradigmas da Lei Natural;

3. É preciso introduzir o elemento espiritual nas relações socioeconômicas como meio de se concretizar a justiça social;

4. É preciso valorizar a diversidade humana, tendo-a como algo natural, buscando uma conduta fundada na tolerância e no respeito ao próximo;

5. É preciso compreender que o agir humano repercute e traz consequências para o outro e para nós próprios, daí a necessidade de se buscar um agir fundado na ética do bem;

6. É preciso espiritualizar as relações humanas em suas dimensões pública e privada, como meio de se atenuar o egoísmo, o consumismo e o materialismo em geral, visando a uma sociedade sustentável e que almeja a paz social;

7. É preciso compreender que a transformação ético-moral individual precede as reformas sociais;

8. É preciso ter coerência com os valores e princípios ético-morais diante da participação em instituições públicas e privadas;

9. É preciso compreender que o pleno exercício das liberdades individuais não prescinde da fixação de limites éticos que preservem a harmonia social, estabelecidos a partir do paradigma do espírito imortal em evolução e da aplicação da Lei de Justiça, de Amor e de Caridade.

10. À medida que se amplia a presença do amor e da fraternidade nas relações humanas reduz-se a esfera do poder coercitivo, o que representa progresso individual e social.

Brasília, 07 de setembro de 2015.

Fonte: http://www.ajebrasil.org.br/arquivos/Carta_de_Brasilia.pdf.

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Índice

Na história do planeta, a ânsia de milhões de pessoas tem se debruçado sobre os mistérios do universo, mente e natureza no afã de buscar respostas para instigantes questões.

Apesar da rejeição de certas crenças, quer queira quer não, a evolução está comprovada cientificamente. Quando Charles Darwin (1809-1882) escreveu em “A Origem das Espécies” ao mesmo tempo que seu colega Alfred Russel Wallace que ‘somos descendentes de vermes e moluscos’, a comunidade científica e o clero estremeceram. A teoria evolucionista afrontava a Bíblia. Darwin e Wallace tinham chegado em suas pesquisas a ação da seleção natural na origem das espécies, ponto fundamental da teoria da evolução. Ainda hoje a ideia de que o homem possui forte parentesco com os primatas – eles possuem 48 cromossomos, dois a mais que o homem – continua provocando polêmicas e inaceitável para algumas crenças e muitas escolas nos Estados Unidos que não aceitam incluir na grade curricular o estudo da teoria evolucionista. Apegadas ao criacionismo, entram em confronto direto com a paleontologia. Os museus de história natural estão exibindo pois uma mentira. A ideia de um primata meio-homem e meio-chipanzé, passando daí para o homem, foi uma evolução lenta e progressiva no campo genético que demandou cerca de 3,5 milhões de anos, pois a natureza não dá saltos. O que a ciência investiga é quando e como teria ocorrido a mutação genética nos nossos parentes mais próximos. Um longo e lento processo do homo habilis, ao homo erectus e desse ao homo sapiens que somos nós. Recuando mais no tempo, atualmente os cientistas concordam que somos subproduto acidental feitos de água, de terra, de ar, da luz e de outros elementos forjados no interior de uma estrela, o Sol. As novas revelações astronômicas e bioquímicas fixam fortemente a crença na ocorrência da vida na amplidão cósmica. Diversas moléculas orgânicas já foram detectadas no meio interestelar e nos cometas existe água e carbono. Há fortes evidências que o impacto de cometas e corpos assemelhados que já contém substâncias pré-bióticas, desencadearam o processo vital na Terra. Essas teorias são objeto de discussões e polêmica no meio científico. Uma coisa, contudo não parece haver dúvida como muito bem a Igreja admitiu recentemente: Deus não usou varinha mágica e a evolução é fato comprovado. Charles Darwin dizia que bastasse que lhe apontassem um único ser vivo sem um antepassado e ele rasgaria sua teoria da evolução. Qualquer processo, contudo pode e precisa ser ordenado em uma linha do tempo. No universo toda a matéria é sustentada por uma rede em que espaço e tempo se entrelaçam. Ao que parece, tudo começou com uma “flutuação quântica” naquele pontinho minúsculo que concentrava toda a energia e a matéria que viria através de um Big Bang ou agora como creem alguns, uma expansão que marcou o inicio do universo. Para os religiosos que perguntam sempre o que Deus fazia antes de criar o céu e a Terra, a resposta de S. Agostinho registrada em suas “Confissões” era profunda e misteriosamente exata do ponto de vista da melhor ciência atual. “Deus não fazia nada mas não significa que ficava o tempo ocioso. Ele não havia ainda criado o tempo”.

A Terra em um espaço Turbulento

Ao contrário de muitas espécies que desapareceram, o homem conseguiu sobreviver em um planeta palco de violentas mudanças climáticas e toda espécie de doenças, cataclismos e destruições. Vestígios estão em toda parte. Já experimentamos cinco extinções em massa. A última há 65 milhões de anos dizimou 80% da vida e nesse ‘pacote’ lá se foram os dinossauros. Se o homem estivesse presente nessa época longínqua, talvez você não estaria lendo esse artigo. Azar deles, sorte nossa. Na escala geológica do tempo, estamos aqui em um período infinitesimal pequeno. Infelizmente violentas mudanças geológicas, geofísicas, climáticas e contínua agressão a natureza, indica que estamos apressando a ocorrência de eventos que irão ceifar a vida de milhões de pessoas. Da Terra para o céu, ao contrário da antiga concepção de um universo tranquilo e de ‘paz celestial’, os modernos meios de investigação astronômica tem mostrado um cosmo extremamente violento. Colisões de asteroides e cometas em planetas, explosões de estrelas super e hipernovas aniquilando tudo ao seu redor com radiação X e gama, buracos negros promovendo um canibalismo cósmico a quem se atrever se aproximar deles e colisão de galáxias, este é o universo que a astronomia nos mostra atualmente. Estamos, pois indefesos expostos a eventos cósmicos capazes de, a qualquer momento, varrer a vida no planeta. Simplesmente estamos deslocados a um canto de uma galáxia espiral, invisíveis a partir do núcleo central, em torno do qual giram bilhões de estrelas, muitas das quais com planetas ao seu redor e com suas humanidades que podem pensar também que são senhores da criação e donos da verdade.

Os grandes Desafios da Mente

A ciência nos aproxima da natureza, dos mistérios insondáveis do cosmo e nos transporta a uma percepção do mundo que pode ser também profundamente espiritual. Albert Einstein (1879-1955) justificava sua devoção a ciência como ‘sentimento religioso cósmico’. Numa contemplação retrospectiva utilizando o raciocínio e a razão, poderíamos concluir que a fé obrigatoriamente necessita estar condizente com nossa existência desde as cavernas ao homem espacial. Fé e ciência caminhando juntas. Obviamente nesse pensamento não estão incluídos aqueles que acreditam simplesmente que tudo é parte de uma evolução da matéria e que não existe nada além disso. Charles Darwin (1809-1882), pensava assim numa ampla ideia de um determinismo genético. Alfred Russel Wallace (1823-1913), que chegou paralelamente aos mesmos resultados de Darwin, ao contrário, buscou uma explicação para satisfazer sua espiritualidade. Procurou conhecer antigas filosofias orientais e os estudos e revelações feitas pelo ilustre cientista e pedagogo, Hippolyte Léon Denizard Rivail – Allan Kardec (1804-1869). Abraçou a ideia de uma evolução também espiritual. Evolução é vida e seria também espiritual para explicar as enormes diferenças sociais, culturais e ações dos seres humanos. Da Terra para o céu, as extraordinárias descobertas de planetas orbitando outras estrelas, confirmando a escola de Epícuro (341-271 a.C.), o poeta romano Titus C. Lucretio (97-55 a.C.), o astrônomo e filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600), o escritor francês Bernard Le Bovier de Fontenelle (1657-1757) e mais recentemente o astrônomo francês Camille Flammarion (1842-1925) de que existem infinitos mundos habitados, atualmente ninguém mais duvida disso. Os cientistas acreditam que podem haver civilizações lá fora e quando chegar aos nossos potentes radiotelescópios aquela tão aguardada mensagem: também estamos aqui! surgirá uma nova era para a humanidade que irá deitar abaixo a crença milenar de que somos seres de uma civilização especial, donos da verdade, centro da criação e eleitos de Deus. A astronomia nos mostra que somos engrenagens microscópicas, um grão de poeira em um vasto universo que existe há bilhões de anos antes do aparecimento do Sol, da Terra e dos humanos e que ele seguirá adiante muito bem sem nós. O universo é um celeiro de vida. Indiferente aos anseios e ambições humanas, está pouco se importando com nosso planeta, nossa existência, nossas conquistas, nossas crenças e nosso futuro. E muito menos com aqueles que creem que Josué parou o Sol! A origem das origens está além da astronomia e talvez além da filosofia no reino do que é para nós, o Incognoscível.

Nos meandros da ciência, crenças e descrenças, por Nelson Travnik (nelson-travnik@hotmail.com) – o autor é astrônomo e membro titular da Sociedade Astronômica da França. Fonte: http://skyandobservers.blogspot.com.br/2015/10/nos-meandros-da-ciencia-crencas-e.html. (os grifos são nossos).

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A missão de Kardec

Allan Kardec

Allan Kardec

Hoje, 03 de outubro de 2015, celebra-se o 211º aniversário de Allan Kardec.

Para comemorar a data, reproduzimos o artigo intitulado A Missão de Kardec, originalmente publicado na 3ª edição da Revista da Associação Brasileia dos Magistrados Espíritas – ABRAME.

Ei-lo:

Paris, 1860, manhã fria de abril. Kardec, encontrava-se exausto, acabrunhado. Embora consolidada a Sociedade Espírita de Paris, faltavam recursos para a obra a executar, enquanto aumentavam as críticas e sarcasmos – conta Hilário Silva, por intermédio de Francisco C. Xavier, em O Espírito da Verdade, editado pela FEB.

Mergulhado em desalento, recebe das mãos de Madame Rivail, sua dedicada esposa, um embrulho que recentemente chegara. Continha uma carta singela, em que o remetente, manifestando sua gratidão, contava que, buscando o suicídio nas águas do Sena, em terrível crise de depressão, ao fixar a mão direita na amurada da Ponte Marie, alta madrugada, tocou em algo que, curiosamente, descobriu tratar-se de um livro.

À luz mortiça de um poste, deparou-se com O Livro dos Espíritos, em cujo frontispício pode ler: “Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. – A. Laurent”.

Ao finalizar, informava que acrescentara uma nota, autorizando o mestre a fazer o uso que lhe aprouvesse.

Kardec, então, desempacotou o exemplar da obra mandada, lendo logo no início a nota mencionada pelo missivista: “Salvou-me também. Deus abençoe as almas que cooperaram com sua publicação. Joseph Perrier”.

Após a leitura, emocionado, sentiu-se banhado em nova luz. “Era preciso continuar, desculpar as injúrias, abraçar o sacrifício e desconhecer as pedradas (…)”.

Levantou-se da velha poltrona, abriu a janela e contemplou os passantes: homens, mulheres, velhos e crianças, a representarem os necessitados que formam a Humanidade e que precisavam do seu esforço, de sua abnegação.

O notável obreiro respirou profundamente, voltou à sua mesa e antes de pegar a caneta para o trabalho, “levou o lenço aos olhos e limpou uma lágrima (…)”.

Todos os espíritas já ouviram falar de Kardec. Muitos leram e, até, se aprofundaram em sua obra, esse tesouro que a Humanidade ainda não descobriu. Muitos o admiram intelectualmente e não são poucos os que, atingidos pelas sombras da dor física ou do sofrimento psíquico, encontram no Espiritismo o lenitivo de que necessitam.

Mas quantos, realmente, são gratos a esse Espírito notável?

Aproximemo-nos do ser humano Hippolyte Rivail e, ao avaliar o tempo e as condições em que operou, certamente daremo-nos mais conta, ainda, de sua real estatura espiritual.

Vivendo na França de Napoleão III, numa época em que não havia luz elétrica (a lâmpada incandescente surgiria com Edison, em 1879), nem telefone (descoberto só em 1876, por Bell), rádio (Marconi nasceria só em 1874) ou telégrafo (só aperfeiçoado por Edison em 1869), e em que os únicos meios de transporte eram os veículos baseados na tração animal e experimentava-se, timidamente, o trem movido a vapor, com a preocupação de que sua “incrível” velocidade de cinquenta quilômetros horários pudesse prejudicar a saúde; num tempo em que o criacionismo e o fixismo eram tidos por verdades, pois que a teoria da evolução (Darwin e Wallace), de 1859, só seria conhecida bem mais tarde, e em que a genética sequer era sonhada (os trabalhos de Mendel, publicados em 1865, só foram percebidos a partir de 1900-02); num período em que o mecanicismo imperava, soberano, e a Física apenas gatinhava (só em 1913 é que Niels Bohr publicou o seu modelo quântico do átomo) e, finalmente, em que o domínio da Igreja, apesar da Reforma, de Rousseau e dos movimentos liberalistas, apresentava-se forte e ostensivo, o gigante Rivail ousou enfrentar todas as resistências e trabalhar pela renovação da civilização.

E lá estava o mestre, acompanhado pelo carinho de sua companheira – sua “doce Gabi” –, madrugadas adentro, à luz de velas e tendo como instrumento uma pena primitiva, mergulhado numa incrível tarefa: mostrar ao mundo a verdadeira natureza espiritual, interexistencial e multiexistencial do ser humano, o seu processo de evolução, a realidade, enfim, da dimensão espiritual.

Sua genialidade, que transparece, já, na própria formulação das questões que compõem o monumental O Livro dos Espíritos, é presente em cada parágrafo de sua obra, construída ao longo dos quatorze anos de trabalho e renúncia.

No Bicentenário de seu nascimento [1804 – 2004], prestemos, sim, unidos, a nossa homenagem ao mestre, pois, a Missão Kardec inaugurou a Era do Espírito, na Terra.

Mas, acima de tudo, lembremo-nos do nosso grande amigo benfeitor Allan Kardec, com o coração.

Referência: 3ª Edição da Revista ABRAME (Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas). Fonte: http://abrame.org.br/?p=78.

 

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