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Archive for maio \30\UTC 2015

Espíritos existem? E reencarnação? Para alguns cientistas, sim. São pesquisadores sérios, do mundo todo, Brasil incluído, que buscam provas sobre a existência da alma. E eles já conseguiram resultados surpreendentes.

Espíritos existem? E reencarnação? Para alguns cientistas, sim. São pesquisadores sérios, do mundo todo, Brasil incluído, que buscam provas sobre a existência da alma. E eles já conseguiram resultados surpreendentes.

Você sabe como é estar morto?

Bastante gente sabe: as milhares de pessoas que passaram por uma parada cardíaca e foram ressuscitadas logo depois. O intrigante é que boa parte volta com alguma história para contar: enquanto o coração estava parado, elas se enxergaram fora do corpo. Observaram tranquilamente a sala de cirurgia, enquanto os médicos tentavam trazê-las de volta à vida.

Para alguns cientistas, isso é uma evidência séria de que a mente, consciência, é uma entidade que não depende do corpo, do cérebro, para existir. Em português claro: que aquilo que as religiões chamam de “alma” é mais do que uma questão de fé, mas uma realidade científica. Há vários brasileiros entre esses pesquisadores. Inclusive na USP, a maior universidade do país. Vamos conhecer o trabalho deles.

Abadiânia, interior de Goiás. As cenas insólitas se sucediam: João de Deus, um autodenominado “médium de cura”, inseria uma pinça do tamanho de uma tesoura grande por dentro do canal do nariz de um homem, fazia uma incisão com bisturi na barriga de outro e passava objetos cortantes sobre os olhos de duas pessoas. Tudo sem anestesia.

Isso não é novidade nem para você nem para ninguém. O mais surpreendente ali era um texto afixado na parede. Era um artigo científico, intitulado “Cirurgia espiritual: uma investigação”. Entre seus autores estavam membros das faculdades de medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora e da USP. Eles haviam acompanhado algumas cirurgias espirituais e avaliado os pacientes. Os acadêmicos concluíram que as intervenções e cortes não eram truques de ilusionismo. O que chamava mesmo a atenção era a proposta dos pesquisadores. Eles defendiam a necessidade de mais investigações sobre o “mundo espiritual”. Eram médicos e psicólogos usando a ciência para estudar algo que sempre fora classificado sob a rubrica “Acredita quem quiser”.

Boa parte dessa vertente científica surgiu no Departamento de Psiquiatria da USP. Lá foi fundado em 1999 o Programa de Saúde, Espiritualidade e Religiosidade (ProSER), que se dedica justamente a examinar os efeitos da religião na saúde das pessoas, como no caso das cirurgias mediú­nicas. O chefe do Departamento de Psiquiatria da USP, Eurípedes Miguel, explica o trabalho: “A medicina está se movendo de um eixo (que tinha como meta combater a doença) para outro (que privilegia a promoção da saúde)”, diz. “Estamos interessados em qualquer método que possa ajudar as pessoas, mesmo que fuja aos nossos padrões.”

A coisa, porém, vai muito além disso. Uma das pesquisas do ProSER foi a de Frederico Leão. Ele buscou mensurar os efeitos das sessões mediúnicas sobre os internos de uma instituição espírita onde trabalhava como psiquiatra. O lugar abrigava pessoas com retardo mental e semanalmente voluntários espíritas realizavam sessões mediúnicas. Nelas, os médiuns diziam incorporar a consciência dos pacientes (embora estes continuassem vivos e abrigados em outras dependências).

“Encarnada” no médium a “alma” do paciente falaria pela boca dele, externando seus problemas emocionais. E a coisa funcionaria como uma espécie de terapia. Para a maioria dos cientistas, uma coisa dessas soaria como um espetáculo circense, uma farsa. Mas não para Leão. Ele quis saber se aquilo dava resultados. Então submeteu os internos a uma avaliação de seu estado geral. Leão observou 58 supostas comunicações durante as sessões mediúnicas por 6 meses. E chegou a uma conclusão nada convencional colocara: 55% dos pacientes que tinham passado pela terapia espírita apresentaram alguma melhora em seu estado mental depois do tratamento, contra 15% dos que não tinham passado.

Trata-se, é claro, de uma avaliação subjetiva, que leva em conta as deduções do pesquisador, que não podem ser medidas por aparelhos. Outro médico poderia ter outra opinião. Mas tratava-se de uma pesquisa científica de fato, tanto que ela foi publicada na própria revista do Instituto de Psiquiatria da USP, a mais conceituada do gênero no país. Desde 2008 Leão é médico no Instituto de Psiquiatria da USP e o atual coordenador do ProSER.

Para os críticos, no entanto, o fato de pesquisas como essas serem aceitas por uma revista científica da universidade não atestam nada. “Mesmo as melhores publicações deixam passar estudos de qualidade duvidosa”, diz o matemático e psicólogo André Luzardo, presidente da Sociedade Racionalista da USP, uma organização que defende o cetismo.

Outro nome forte na ciência da espiritualidade é o do psiquiatra Alexander Almeida. Ele foi um dos autores daquele estudo sobre as cirurgias de João de Deus e hoje trabalha na Universidade Federal de Juiz de Fora coordenando o Nupes (Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde), onde segue desenvolvendo suas pesquisas. Uma delas, inclusive, em conjunto com uma estrela internacional da ciência do além, o inglês Sam Parnia, que estuda as chamadas “experiências de quase morte” – EQMs, no jargão dos pesquisadores.

Vida após a morte

Quando o coração para, o fluxo sanguíneo e os níveis de oxigênio no cérebro caem para quase zero em instantes. Nos próximos 10 ou 20 segundos as máquinas de eletroencefalograma não mostram nada além de uma linha reta. O cérebro não funciona. Fim.

Mas a morte tem volta. Graças aos desfibriladores, médicos podem ressuscitar pacientes que tiveram uma parada cardíaca no leito do hospital. E não falta quem volte desse estado com memórias vívidas.

O roteiro é sempre parecido. E bem conhecido. Depois de ressuscitado, o paciente diz que observou o próprio corpo do lado de fora, como se estivesse no teto do quarto do hospital, enquanto os médicos aplicavam as descargas elétricas do desfibrilador. Então eles se sentem “puxados” lá para baixo.

E voltam à vida

Intrigado com essas histórias, Parnia bolou um projeto para testar a veracidade delas. Em 1997, conseguiu a autorização do Hospital Geral de Southampton, onde trabalha como cardiologista, para emplacar a pesquisa. A ideia era conversar com todos os sobreviventes de paradas cardíacas do hospital, durante um ano, para saber se haviam passado por algum momento lúcido durante a morte clínica. E o principal: o médico instalou 150 placas pelo hospital, com sinais, textos e desenhos virados para cima, posicionadas de tal maneira que apenas alguém localizado no teto poderia ler. Assim, caso um paciente contasse o que havia na placa, a experiência fora do corpo estaria comprovada.

Parnia contou com a ajuda do mais célebre entre todos os que estudam o além, o neurologista Peter Fenwick. O inglês é o homem que tornou as EQMs assunto de mesa de almoço de domingo pelo mundo.

Fenwick era cético até 1985, quando, durante seu trabalho no hospital Maudsley, em Londres, teve que atender um paciente que demonstrava ansiedade extrema. O homem contou que durante uma cirurgia de cateterismo sofreu uma parada cardíaca. Enquanto os médicos tentavam ressuscitá-lo, sentiu-se puxado para fora do corpo e, do teto do quarto, pôde observar a movimentação. De repente, percebeu que estava de volta à cama do hospital. A experiência fora tão marcante que desencadeou a crise de ansiedade. “Até ter essa conversa, achava que essas coisas só aconteciam na Califórnia”, brincou o médico (o estado americano sempre foi a capital mundial do consumo de alucinógenos).

Mesmo não acreditando em experiências de quase morte, Fenwick começou a buscar mais relatos. Conseguiu algumas dezenas, como o do inglês Derrick Scull. Major aposentado do exército, pai de dois filhos e funcionário de uma respeitada empresa de advocacia, tinha todas as credenciais de uma pessoa centrada e nada mística quando passou por uma experiência que mudou suas crenças. Em 1978 ele sofreu um enfarte e, após ter recebido os primeiros socorros, foi deixado numa cama de UTI. Durante a parada cardíaca, sentiu-se sair do corpo. Do canto esquerdo do teto, pôs-se a observar o próprio corpo, e reparou que estava vestido com um robe e uma máscara contra contaminação. Ao mesmo tempo, foi capaz de enxergar a esposa falando com a enfermeira, e percebeu que ela estava vestida com um tailleur vermelho. Depois, encontrou-se de novo deitado na cama. Percebeu que a esposa havia entrado na UTI e que ela estava vestindo a mesma roupa que ele havia visto “de cima”. Fenwick apresentou esses relatos num documentário da BBC em 1988. E a partir dali os elementos mais comuns das EQMs, como a sensação de sair do corpo, entraram para o folclore moderno.

Parnia também colecionou histórias que pacientes lhe contavam, como a de uma mulher que, enquanto estava na forma de fantasma no teto da sala de cirurgia, viu o médico esbarrar num carrinho com instrumentos cirúrgicos, fazendo-o deslizar pela sala e se chocar contra uma parede. No dia seguinte, quando contou a ele sobre os incidentes com o carrinho, ele achou que alguma das enfermeiras tinha contado a história à paciente. Segundo ela, não tinha.

Naquela mesma época, outros médicos tocavam projetos parecidos com os de Parnia. Na Holanda, o cardiologista Pim van Lommel também estudava histórias assim. Lommel conheceu a de um homem que, em estado de coma profundo e com uma parada cardíaca no meio do processo, viu de fora do corpo a enfermeira retirar a dentadura dele e colocá-la em um carrinho especial. Uma semana depois, em fase de recuperação, ele voltou ao hospital e reconheceu uma das enfermeiras. Lembrou-se de que fora ela quem tinha retirado seus dentes e os colocado em um carrinho, com garrafas em cima e uma gaveta embaixo. Para a surpresa da enfermeira, apesar do coma, o paciente descreveu com detalhes a sala e as pessoas que participaram da operação.

Seja como for, isso são só relatos. Acredita quem quer. Justamente por isso, Parnia e Fenwick resolveram dar um passo adiante da simples coleta de casos e partiram para a experiência com placas.

Mas os resultados não foram animadores. A dupla registrou 63 ressuscitações, mas nenhum desses pacientes disse ter viajado para fora do corpo. Então as placas ficaram à toa, sem leitores em potencial.

Outro lado

Para os céticos, o resultado não poderia ser outro, mesmo que houvesse uma EQM. A maior parte dos pesquisadores entende que elas não passam de uma confusão cerebral. No momento de uma parada cardíaca, a perda de oxigênio faz com que a massa cinzenta deixe de distinguir realidade e fantasia. Ela entra em pane. Balançada pela desordem, recorre à memória de curto prazo para compreender a situa­ção. Então se depara com cenas que acabou de registrar, como a própria sala de cirurgia. A partir daí, tenta reconstruir o que está supostamente acontecendo naquele momento. Imagina o atendimento médico, a sala de operação. Então a memória nos prega uma peça. Todas as nossas lembranças registram uma visão panorâmica, como uma imagem de filme, em terceira pessoa, criando a sensação de estarmos fora do próprio corpo – quando você se lembra de um momento do passado, não visualiza exatamente o que os seus olhos registraram; enxerga o seu corpo na cena. Do lado de fora. Você se vê de costas, de lado, de frente… O cérebro é um diretor de cinema. E o seu corpo, o protagonista.

Portanto, em meio à confusão de uma parada cardíaca, a mente enxerga todas as recordações (e recriações) recentes como imagens do presente. Atribui a elas o rótulo de “realidade”. É por isso que os pacientes relatariam as cenas de ressuscitação como se estivessem no teto do hospital. A experiência fora do corpo seria apenas um modelo de memória do cérebro – só que tomado como real.

Alguns pacientes contam detalhes específicos, como o caso da mulher que viu o médico se atrapalhar com o carrinho cirúrgico. Susan, porém, acredita que nesses casos a audição estaria ainda em funcionamento – já que é o último dos sentidos a ser perdido -, e a mente seria capaz de criar aquela imagem visual.

Os pesquisadores que defendem a “distinção entre mente e cérebro”, no entanto, não veem grande coerência nessas teorias. Alegam que, naqueles instantes de morte, os aparelhos de eletroencefalograma não deixam dúvida: não há atividade cerebral. No entanto, outros três estudos feitos no século 21 questionam a ideia de total “desligamento” do cérebro. Sugerem que as máquinas monitoram, principalmente, a atividade na superfície do órgão. O monitor mostra a linha reta, mas outras partes mais internas podem estar em atividade. É o caso do lobo temporal, o “núcleo” do cérebro.

Um experimento em especial parece sugestivo. Os voluntários receberam estímulos elétricos na região do cérebro conhecida como giro angular direito, que é parte do lobo temporal. Com uma certa intensidade de estimulação, os voluntários disseram se sentir “como se estivessem afundando na cama”. Estímulos mais fortes produziram relatos como “estou acima do meu corpo e o vejo estendido” – é que essa parte do cérebro é a responsável por delimitar a percepção sobre onde termina e corpo e onde começa o mundo exterior. Nos primeiros instantes de parada cardía­ca, então, essa região continua ligada, só que em parafuso. Daí para ela agir como nos experimentos em que está sob uma descarga forte de impulsos elétricos é um pulo.

Mas Sam Parnia, apesar de não ser brasileiro, não desiste nunca. Ele preparou uma experiência bem maior para caçar seus fantasmas. O inglês agora trabalha para recrutar hospitais pelo mundo todo que topem instalar placas pelo prédio ou apenas permitir entrevistas com os sobreviventes de paradas cardíacas.

Essa é a pesquisa que Alexander Moreira Almeida está fazendo com ele. O brasileiro é o braço direito de Parnia por aqui. Três hospitais aceitaram a parceria (Santa Casa, Hospital Universitário e Monte Sinai, todos de Juiz de Fora, a cidade de Alexander).

Fenwick também está nessa: acertou parcerias com hospitais do Reino Unido, da França e da Austrália. “Esperamos conseguir compilar 1 500 relatos de EQMs. Se alguns pacientes conseguirem relatar o texto das placas, poderemos demonstrar que a mente e o cérebro são coisas distintas”, diz. Por “distinção entre mente e cérebro” entenda uma consciência que existe independentemente do corpo. Mas é só um jargão. Na rua as pessoas chamam isso de “espírito”, “alma”, “fantasma.”

O jargão também serviu para batizar o primeiro evento brasileiro dedicado às pesquisas sobre o além, o “I Simpósio Internacional Explorando as Fronteiras da Relação Mente e Cérebro”, em (de novo) Juiz de Fora. Foi um ciclo de palestras em 2010 que reuniu 9 cientistas da área, entre eles Fenwick e Alexander. Na pauta, relatos de experiências transcendentais, como as que você viu aqui, filosofia e surrealidades da física quântica (que até tem seu lado “espírita”: partículas aparecem e desaparecem do nada no mundo subatômico, por exemplo, mas isso é ciência tradicional mesmo).

Bem mais fora do comum, porém, é outro assunto que estava na pauta do seminário: as pesquisas com reencarnação. Como vocês, um dos maiores especialistas nessa área, que também esteve no simpósio: Erlendur Haraldsson, do Departamento de Psicologia da Universidade da Islândia.

Reencarnação

Haraldsson passou duas décadas investigando reencarnação. Seu objeto de pesquisa são crianças que alegam terem recordações de uma vida passada. É o caso de Wael Kiman, um menino do Líbano.

A partir dos 4 anos, ele começou a dizer aos pais que seu nome, na verdade, era Rabin, que tinha sido adulto e que seus pais viviam na capital do país. Com o tempo, passou a acrescentar detalhes. Os pais da outra vida moravam numa casa perto do mar, que tinha uma varanda baixa, de onde ele costumava pular direto para a rua. Ele também tinha uma segunda casa. Mas para essa ele só podia ir de avião. Delírio? Parecia. Tempos depois, porém, os pais de Wael identificaram uma família da capital que havia perdido um filho adulto e que se chamava Rabin; então levaram o pequeno Wael para visitá-los. Durante a visita, ele apontou para uma foto do morto e disse que era sua. A casa ficava perto do porto, e tinha uma varanda baixinha. Para completar, o rapaz vivia nos EUA na época em que morreu. Ou seja: ia para sua segunda casa de… avião.

No simpósio, Haraldsson também contou a história de Tsushita Silva, uma menina do Sri Lanka que afirmava que numa outra vida tinha morado numa cidade próxima, estava grávida e havia morrido ao cair de uma ponte. O pesquisador, então, visitou a tal cidade e localizou a família de uma certa Chandra Nanayakkara, que morrera ao cair de uma ponte nos anos 70. Chandra estava grávida de 7 meses.

Outro caso é o da garota Purnima Ekanawake, do Sri Lanka. Quando ela e a mãe presenciaram um acidente no trânsito, Purnima tentou tranquilizá-la: “Não se preocupe com isso. Eu vim para você depois de um acidente também”. Na vida passada, segundo ela, um ônibus a atropelara. Também disse que a antiga família fabricava incensos. Ela lembrava até da marca: Ambiga.

Os pais começaram a investigar e encontraram o dono dessa fábrica de incensos. Ele disse que seu cunhado Jinadasa tinha morrido atropelado por um ônibus. Quando levaram Purnima à casa do sujeito, ela, então com 6 anos, reconheceu o dono da fábrica como seu “cunhado”. Purnima seria a reencarnação de Jinadasa. A menina também mostrou uma marca de nascença. Disse que era onde os pneus do ônibus tinham passado.

Haraldsson conheceu a garota em 1996, quando ela tinha 9 anos. Como de costume, ele entrevistou, separadamente, a garota, os familiares e os vizinhos para saber quando e como as lembranças apareceram. Investigou também se havia a possibilidade de a garota ter tido acesso àquelas informações por meios normais. Mas não existia qualquer ligação entre as famílias, e elas moravam em lugares distantes.

As evidências lhe pareceram fortes, sem armações. Haraldsson, então, investigou o acidente que matou Jinadasa. Com a permissão de um tribunal local, teve acesso ao obituário completo do rapaz. As principais fraturas foram localizadas no lado esquerdo do peito, com várias costelas quebradas, que penetraram os pulmões. A marca de nascença de Purnima fica no lado esquerdo do peito. O psicólogo islandês não tem uma teoria sobre as marcas de nascença. Mas outro pesquisador de reencarnações, o psiquiatra americano Jim Tucker, da Universidade da Virgínia, arrisca: “Sabemos, por meio de trabalhos de outras áreas, que imagens mentais podem, por vezes, produzir efeitos muito específicos no corpo. Meu pensamento é que, se a consciência sobrevive, ela carrega as imagens dos ferimentos fatais, afetando o desenvolvimento do feto”, diz. De acordo com Tucker, na Índia, um terço dos casos investigados de reencarnação inclui marcas de nascença – em 18% deles, registros médicos amparam as semelhanças.

Desnecessário dizer que as pesquisas com reencarnação são severamente criticadas pela academia. Não parece ser coincidência que a esmagadora maioria dos casos estudados ocorra em países onde a crença em reencarnação é largamente disseminada, caso do Sri Lanka. Haraldsson, por exemplo, teve facilidade em encontrar casos por causa do apoio da mídia. Nos veículos de comunicação de lá, histórias de reencarnação ganham espaço de destaque. E a visita de pesquisadores como Haraldsson também. Quem tiver uma história bem contada, então, tem chance de ficar famoso – daí para surgirem fraudes elaboradas é um pulo.

Também é comum que os pesquisadores só tenham acesso a histórias assim quando os pais da criança já “encontraram” a família da outra vida dela, como no caso de Purnima. Isso complica o processo de checagem das informações. É difícil identificar quais eram as afirmações originais do suposto reencarnado e o que ele aprendeu sobre a pessoa falecida a partir do momento em que entrou em contato com a família dela.

Mais: por um lado, os informantes tendem a “esquecer” as afirmações da criança que não coincidem com a vida da pessoa que acreditam que ela foi. Por outro, colocam na boca dela informações que só foram obtidas depois, quando as duas famílias já estavam em contato.

Com tantas evidências contra, é difícil não acreditar que os pesquisadores de reencarnações, EQMs e afins se movam mais pela fé do que pela curiosidade científica. Mesmo assim, continua sendo uma forma de ciência, já que a busca é por resultados concretos. Se um dia eles vão chegar a esses resultados?

Quem viver verá. E quem morrer também.

Ciência Espírita, por Pablo Nogueira e Carol Castro, in Revista Super Interessante, outubro de 2011, Editora Abril. Disponível em: http://super.abril.com.br/ciencia/ciencia-espirita-647060.shtml.

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Medicina reconhece obsessão espiritual

Dr. Sérgio Felipe de Oliveira1 com a palavra:

“Ouvir vozes e ver espíritos não é motivo para tomar remédio de faixa preta pelo resto da vida… Até que enfim as mentes materialistas estão se abrindo para a Nova Era; para aqueles que queiram acordar, boa viagem, para os que preferem ainda não mudar de opinião, boa viagem também…”

Uma nova postura da medicina frente aos desafios da espiritualidade. Vejam que interessante a palestra sobre a glândula pineal do Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, médico psiquiatra que coordena a cadeira de Medicina e Espiritualidade na USP:

“A obsessão espiritual como doença da alma, já é reconhecida pela Medicina. Em artigos anteriores, escrevi que a obsessão espiritual, na qualidade de doença da alma, ainda não era catalogada nos compêndios da Medicina, por esta se estruturar numa visão cartesiana, puramente organicista do Ser e, com isso, não levava em consideração a existência da alma, do espírito. No entanto, quero retificar, atualizar os leitores de meus artigos com essa informação, pois desde 1998, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o bem-estar espiritual como uma das definições de saúde, ao lado do aspecto físico, mental e social. Antes, a OMS definia saúde como o estado de completo bem-estar biológico, psicológico e social do indivíduo e desconsiderava o bem estar espiritual, isto é, o sofrimento da alma; tinha, portanto, uma visão reducionista, organicista da natureza humana, não a vendo em sua totalidade: mente, corpo e espírito.

“Mas, após a data mencionada acima, ela passou a definir saúde como o estado de completo bem-estar do ser humano integral: biológico, psicológico e espiritual.

“Desta forma, a obsessão espiritual oficialmente passou a ser conhecida na medicina como possessão e estado de transe, que é um item do CID – Código Internacional de Doenças – que permite o diagnóstico da interferência espiritual obsessora.

O CID 10, item F.44.3 – define estado de transe e possessão como a perda transitória da identidade com manutenção de consciência do meio-ambiente, fazendo a distinção “entre os normais, ou seja, os que acontecem por incorporação ou atuação dos espíritos, dos que são patológicos, provocados por doença.

“Os casos, por exemplo, em que a pessoa entra em transe durante os cultos religiosos e sessões mediúnicas não são considerados doença.

“Neste aspecto, a alucinação é um sintoma que pode surgir tanto nos transtornos mentais psiquiátricos – nesse caso, seria uma doença, um transtorno dissociativo psicótico ou o que popularmente se chama de loucura bem como na interferência de um ser desencarnado, a Obsessão espiritual.

“Portanto, a Psiquiatria já faz a distinção entre o estado de transe normal e o dos psicóticos que seriam anormais ou doentios.

“O manual de estatística de desordens mentais da Associação Americana de Psiquiatria – DSM IV – alerta que o médico deve tomar cuidado para não diagnosticar de forma equivocada como alucinação ou psicose, casos de pessoas de determinadas comunidades religiosas que dizem ver ou ouvir espíritos de pessoas mortas, porque isso pode não significar uma alucinação ou loucura.”

Na Faculdade de Medicina da USP, o Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, médico, que coordena a cadeira (hoje obrigatória) de Medicina e Espiritualidade.

Na Psicologia, Carl Gustav Jung, discípulo de Freud, estudou o caso de uma médium que recebia espíritos por incorporação nas sessões espíritas.

Na prática, embora o Código Internacional de Doenças (CID) seja conhecido no mundo todo, lamentavelmente o que se percebe ainda é muitos médicos rotularem todas as pessoas que dizem ouvir vozes ou ver espíritos como psicóticas e tratam-nas com medicamentos pesados pelo resto de suas vidas.

“Em minha prática clínica (também praticada por Ian Stevenson), a grande maioria dos pacientes, rotulados pelos psiquiatras de “psicóticos” por ouvirem vozes (clariaudiência) ou verem espíritos (clarividência), na verdade, são médiuns com desequilíbrio mediúnico e não com um desequilíbrio mental, psiquiátrico. (Muitos desses pacientes poderiam se curar a partir do momento que tivermos uma Medicina que leva em consideração o Ser Integral).

“Portanto, a obsessão espiritual como uma enfermidade da alma, merece ser estudada de forma séria e aprofundada para que possamos melhorar a qualidade de vida do enfermo”.

Texto de Osvaldo Shimoda. Colaboração de CEECAL – Centro de Estudos Espírita Caminho da Luz: http://ceecal.com/.

Fonte: http://www.celc.org.br/blog/2013/01/medicina-reconhece-obsessao-espiritual

1 O Dr. Sérgio Felipe de Oliveira é médico neurocientista e professor da USP.

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Estudos da Revista Espírita

(Continuação…)

Conversas de Além-Túmulo

FREDEGUNDA

Damos a seguir as duas evocações do Espírito Fredegunda, feitas na Sociedade, com um mês de intervalo, e que formam o complemento dos dois artigos anteriores sobre a possessão da senhorita Júlia. Embora não se manifestasse com sinais de violência, o Espírito escrevia com grande dificuldade e fatigava extremamente o médium, que chegou a ficar indisposto e cujas faculdades pareciam, de certo modo, paralisadas. Prevendo esse resultado, tivéramos o cuidado de não confiar essa evocação a um médium muito delicado.

Em outra circunstância, interrogado a respeito do Espírito Fredegunda, outro Espírito tinha dito que há muito tempo ela procurava reencarnar-se, mas que isto não lhe havia sido permitido, porque o seu objetivo não era ainda melhorar-se, mas, ao contrário, ter mais facilidade para fazer o mal, com o auxílio de um corpo material. Tais disposições deveriam tornar sua conversão muito difícil. Entretanto, esta não o foi tanto quanto se poderia temer, graças, sem dúvida, ao concurso benevolente de todas as pessoas que nela participaram, e talvez também porque era chegado o momento em que esse Espírito deveria entrar na via do arrependimento.

(16 de outubro de 1863 – Médium: Sr. Leymarie)

1. Evocação.

Resp. – Não sou Fredegunda. Que quereis de mim?

2. Então quem sois?

Resp. – Um Espírito que sofre.

3. Visto que sofreis, deveis desejar não mais sofrer. Nós vos assistiremos, pois lamentamos todos os que sofrem neste mundo e no outro; mas é necessário que nos secundeis e, para isto, é preciso que oreis.

Resp. – Agradeço-vos, mas não posso orar.

4. Nós vamos orar; isto vos auxiliará. Tende confiança na bondade de Deus, que sempre perdoa àquele que se arrepende.

Resp. – Creio em vós. Orai, orai; talvez eu me possa converter.

5. Mas não basta que oremos; é preciso que também oreis.

Resp. – Eu quis orar e não pude; tentarei agora com o vosso auxílio.

6. Dizei conosco: Meu Deus, perdoai-me, já que pequei. Arrependo-me do mal que fiz.

Resp. – Di-lo-ei depois.

7. Isto não é suficiente; é preciso escrever.

Resp. – Meu… (Aqui o Espírito é incapaz de escrever a palavra Deus. Só depois de muito encorajamento consegue terminar a frase, de modo irregular e pouco legível.)

8. Não basta dizer isto proforma. É preciso pensar e tomar a resolução de não mais fazer o mal; como vereis, logo sereis aliviada.

Resp. – Vou orar.

9. Se orastes sinceramente, não vos sentis melhor?

Resp. – Oh! sim!

10. Agora, dai-nos alguns detalhes sobre a vossa vida e as causas da vossa obstinação contra Júlia.

Resp. – Mais tarde… direi… mas hoje não posso.

11. Prometeis deixar Júlia em paz? O mal que lhe fazeis cai sobre vós e aumenta o vosso sofrimento.

Resp. – Sim, mas sou impelida por outros Espíritos piores do que eu.

12. É uma má desculpa, que dais para vos escusardes.

Em todo o caso, deveis ter uma vontade e com a vontade sempre se pode resistir às más sugestões.

Resp. – Se eu tivesse tido vontade, não sofreria. Sou punida porque não soube resistir.

13. No entanto, mostrastes bastante vontade para atormentar Júlia. Como acabais de tomar boas resoluções, nós vos exortamos a nelas persistir e pedimos aos Espíritos bons que vos secundem.

Observação – Durante esta evocação, outro médium recebeu de seu guia espiritual uma comunicação, contendo, entre outras coisas, o seguinte: “Não vos inquieteis com as recusas que notais nas respostas deste Espírito: sua ideia fixa de reencarnar faz que repila toda solidariedade com o passado, embora não suporte muito os seus efeitos. É ela mesma a que foi indicada, mas não quer concordar consigo mesma.”

(13 de novembro de 1863)

14. Evocação.

Resp. – Estou pronta para responder.

15. Persististes na boa resolução em que estáveis da última vez?

Resp. – Sim.

16. Como vos achais?

Resp. – Muito bem, pois orei, estou mais calma e muito mais feliz.

17. Com efeito, sabemos que Júlia não foi mais atormentada. Já que podeis vos comunicar mais facilmente, quereis dizer por que vos obstináveis tanto contra ela?

Resp. – Há séculos eu não era lembrada e desejava que a maldição que cobre meu nome cessasse um pouco, a fim de que uma prece, uma única, viesse consolar-me. Oro, creio em Deus; agora posso pronunciar seu nome e, por certo, é mais do que eu poderia esperar do benefício que me concedeis.

Observação – No intervalo da primeira à segunda evocação, o Espírito era chamado todos os dias por aquele de nossos colegas encarregado de o instruir. Um fato positivo é que, a partir desse momento, a senhorita Júlia deixou de ser atormentada.

18. É bastante duvidoso que o só desejo de obter uma prece tenha sido o móvel que vos levava a atormentar aquela moça; sem dúvida buscais ainda um paliativo para os vossos erros. Em todo o caso, não era um bom meio de atrair a compaixão dos homens.

Resp. – Contudo, se eu não tivesse atormentado Júlia, não teríeis pensado em mim e eu não teria saído do miserável estado em que languescia. Disso resultou uma instrução para vós e um grande bem para mim, pois me abristes os olhos.

19. [Ao guia do médium]. Foi mesmo Fredegunda que deu esta resposta?

Resp. – Sim, foi ela, um pouco auxiliada, é verdade, porque se humilhou. Mas este Espírito é muito mais adiantado em inteligência do que pensais; falta-lhe o progresso moral, cujos primeiros passos lhe ajudais a dar. Ela não vos disse que Júlia tirará grande proveito do que se passou para o seu avanço pessoal.

20. [A Fredegunda]. A senhorita Júlia vivia em vosso tempo? poderíeis dizer quem era ela?

Resp. – Sim. Era uma de minhas damas de companhia, chamada Hildegarda; uma alma sofredora e resignada, que fazia minha vontade. Sofreu o castigo de seus serviços muito humildes e muito complacentes a meu respeito.

21. Desejais uma nova encarnação?

Resp. – Sim, desejo. Ó meu Deus! sofri mil torturas e, se mereci uma pena muito justa, ah! é tempo para que eu possa, com o auxílio de vossas preces, recomeçar uma existência melhor, a fim de me lavar das minhas antigas sujeiras. Deus é justo. Orai por mim. Até hoje eu tinha desconhecido toda a extensão de minha pena; tinha o olhar velado e como que uma vertigem. Mas agora vejo, compreendo, desejo o perdão do Senhor e o das minhas vítimas. Meu Deus, como é suave o perdão!

22. Dizei-nos algo de Brunehaut.

Resp. – Brunehaut!… Este nome me dá vertigem… Foi o grande erro de minha vida e senti o meu velho ódio despertar ao ouvir o seu nome!… Mas Deus me perdoará e doravante poderei escrever esse nome sem tremer. Mais feliz que eu, ela está reencarnada pela segunda vez, desempenhando um papel que desejo: o de irmã de caridade.

23. Estamos felizes com a vossa mudança; nós vos encorajaremos e sustentaremos com nossas preces.

Resp. – Obrigada! obrigada! Espíritos bons, Deus vos pagará por isto.

Observação – Um fato característico dos Espíritos maus é a impossibilidade em que muitas vezes se acham de pronunciar ou escrever o nome de Deus. Isto denota uma natureza má, sem dúvida, mas, ao mesmo tempo, um misto de medo e de respeito, que não sentem os Espíritos hipócritas, aparentemente menos maus. Estes últimos, longe de recuarem ante o nome de Deus, dele se servem afrontosamente para captar a confiança. São infinitamente mais perversos e mais perigosos que os Espíritos francamente maus. É nesta classe que são encontrados a maioria dos Espíritos fascinadores, dos quais é muito mais difícil desembaraçar-se do que dos outros, porque é do Espírito mesmo que eles se apossam, auxiliados por um falso semblante de saber, de virtude ou de religião, ao passo que os outros só se apossam do corpo. Um Espírito que, como o de Fredegunda, recua ante o nome de Deus, está muito mais próximo de sua conversão do que os que se cobrem com a máscara do bem. Dá-se o mesmo entre os homens, onde encontrais estas duas categorias de Espíritos encarnados.

Por Allan Kardec, in: REVISTA ESPÍRITA (Jornal de Estudos Psicológicos), janeiro de 1864, edição FEB, tradução de Evandro Noleto Bezerra.

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Estudos da Revista Espírita

(Segundo artigo)

Em nosso artigo anterior [ver post abaixo], descrevemos a triste situação dessa moça e as circunstâncias que nela provavam uma verdadeira possessão. Sentimo-nos feliz ao confirmar o que dissemos de sua cura, hoje completa. Depois de liberta de seu Espírito obsessor, os violentos abalos que tinha sofrido durante mais de seis meses haviam provocado grave perturbação em sua saúde. Agora está completamente recuperada, mas não saiu do estado sonambúlico, o que não a impede de consagrar-se aos seus trabalhos habituais. Vamos expor as circunstâncias dessa cura.

Várias pessoas haviam tentado magnetizá-la, mas sem muito sucesso, salvo uma leve e passageira melhora no seu estado patológico. Quanto ao Espírito, era cada vez mais tenaz, e as crises haviam atingido um grau de violência dos mais inquietadores. Teria sido necessário um magnetizador nas condições que indicamos no artigo precedente para os médiuns curadores, isto é, penetrando a doente com um fluido bastante puro para eliminar o fluido do Espírito mau. Se há um gênero de mediunidade que exige superioridade moral é, seguramente, o caso das obsessões, pois é preciso ter o direito de impor sua autoridade ao Espírito. Os casos de possessão, segundo o que é anunciado, devem multiplicar-se com grande energia daqui a algum tempo, a fim de que fique bem demonstrada a impotência dos meios empregados até agora para os combater. Até uma circunstância, da qual não podemos ainda falar, mas que tem certa analogia com o que se passou ao tempo do Cristo, contribuirá para desenvolver essa espécie de epidemia demoníaca. Não é duvidoso que surjam médiuns especiais com o poder de expulsar os Espíritos maus, como os apóstolos tinham o de expulsar os demônios, seja porque Deus sempre põe o remédio ao lado do mal, seja para dar aos incrédulos uma nova prova da existência dos Espíritos.

Para a senhorita Júlia, o magnetismo simples, como em todos os casos análogos, por mais enérgico que fosse, era insuficiente. Dever-se-ia agir simultaneamente sobre o Espírito obsessor, para o dominar, e sobre o moral da doente, perturbada por todos esses abalos; o mal físico era apenas consecutivo; era efeito, e não causa. Devia-se, pois, tratar a causa antes do efeito. Destruído o mal moral, o mal físico desapareceria por si mesmo. Mas para isto é preciso identificar-se com a causa; estudar com o maior cuidado e em todos os seus matizes o curso das ideias, para lhe imprimir tal ou qual direção mais favorável, porque os sintomas variam conforme o grau de inteligência do paciente, o caráter do Espírito e os motivos da obsessão, motivos cuja origem remonta quase sempre a existências anteriores.

O insucesso do magnetismo com a senhorita Júlia levou várias pessoas a tentar; neste número estava um jovem dotado de grande força fluídica, mas que, infelizmente, não tinha qualquer experiência e, sobretudo, os conhecimentos necessários em casos semelhantes. Ele se atribuía um poder absoluto sobre os Espíritos inferiores que, em sua opinião, não podiam resistir à sua vontade. Tal pretensão, levada ao excesso e baseada em sua força pessoal e não na assistência dos Espíritos bons, deveria provocar-lhe mais uma decepção. Só isto deveria ter bastado para mostrar aos amigos da mocinha que faltava a primeira das qualidades requeridas para que o socorro lhe fosse eficaz. Mas o que, acima de tudo, deveria tê-los esclarecido, é que ele professava, sobre os Espíritos em geral, uma opinião completamente falsa. Segundo ele, os Espíritos superiores são de natureza muito etérea para poderem vir à Terra comunicar-se com os homens e os assistir; isto só é possível aos Espíritos inferiores, em razão de sua natureza mais grosseira. Esta opinião, que não passa da doutrina da comunicação exclusiva dos demônios, cometia ele o grave erro de a sustentar diante da enferma, mesmo nos momentos de crise. Com esta maneira de ver, só devia contar consigo mesmo, e não podia invocar a única assistência capaz de ajudá-lo, assistência que, é verdade, julgava poder dispensar. A consequência mais deplorável era para a doente, que ele desencorajava, tirando-lhe a esperança da assistência dos Espíritos bons. No estado de debilidade em que se achava o seu cérebro, tal crença, que dava todo poder ao Espírito obsessor, poderia tornar-se fatal para sua razão, e mesmo matá-la. Assim, ela repetia sem cessar, nos momentos de crise: “Louca… louca…, ele me põe louca… completamente louca… eu ainda não o sou, mas ficarei.” Falando de seu magnetizador, ela descrevia perfeitamente sua ação, dizendo: “Ele me dá a força do corpo, mas não a força do espírito.” Tal expressão era profundamente significativa e, no entanto, ninguém lhe dava importância.

Quando vimos a senhorita Júlia, o mal estava no seu apogeu e a crise que testemunhamos foi uma das mais violentas. Foi no próprio momento em que nos dedicávamos a levantar-lhe o moral e inculcar-lhe o pensamento de que ela podia dominar esse Espírito mau, com a assistência dos bons e de seu anjo-da-guarda, cujo apoio devia invocar. Foi nesse momento, dizíamos, que o jovem magnetizador, que se achava presente, por uma circunstância sem dúvida providencial, veio, sem qualquer provocação, afirmar e desenvolver sua teoria, destruindo por um lado o que fazíamos por  outro. Tivemos de lhe expor com energia que praticava uma má ação e assumia a terrível responsabilidade da razão e da vida daquela infeliz mocinha.

Um fato dos mais singulares, que todos tinham observado, mas cujas consequências ninguém havia deduzido, produzia-se na magnetização. Quando se dava durante a luta com o Espírito mau, só este último absorvia todo o fluido, que lhe conferia mais força, enquanto a doente enfraquecia e sucumbia à sua ação nefasta. Devemos nos lembrar de que ela estava sempre em estado sonambúlico; consequentemente, via o que se passava, e foi ela mesma quem deu a explicação. Não viram no fato senão uma malícia do Espírito e contentavam-se em se absterem de magnetizar em tais momentos e ficarem como espectadores da luta. Com o conhecimento da natureza dos fluidos, é possível dar-se conta facilmente desse fenômeno. Antes de mais, é evidente que, absorvendo o fluido para aumentar a força em detrimento da doente, o Espírito queria convencer o magnetizador da inutilidade de sua pretensão. Se havia malícia de sua parte, era contra o magnetizador, pois se servia da mesma arma com a qual este último pretendia vencê-lo. Pode dizer-se que lhe tomava o bastão das mãos. Não menos evidente era a sua facilidade de se apropriar do fluido do magnetizador, denotando uma afinidade entre esse fluido e o seu próprio, ao passo que fluidos de natureza contrária se teriam repelido, como água e óleo. Só este fato bastaria para demonstrar que havia outras condições a preencher. É, pois, um erro dos mais graves e, podemos dizer, dos mais funestos, não ver na ação magnética senão uma simples emissão fluídica, sem levar em conta a qualidade íntima dos fluidos. Na maioria dos casos, o sucesso repousa inteiramente nestas qualidades, como o êxito depende, na terapêutica, da qualidade do medicamento. Não seria demais chamar a atenção para este ponto capital, demonstrado, ao mesmo tempo, pela lógica e pela experiência.

Para combater a influência da doutrina do magnetizador, que já havia influenciado as ideias da doente, dissemos a esta: “Minha filha, tende confiança em Deus; olhai em volta. Não vede Espíritos bons? – É verdade, diz ela; vejo luminosos, que Fredegunda não ousa encarar. – Pois bem! são os que vos protegem e não permitirão que o Espírito mau triunfe; implorai sua assistência; orai com fervor; orai sobretudo por Fredegunda. – Oh! Por ela jamais o poderei. – Cuidado! vede como se afastam os Espíritos bons a estas palavras. Se quiserdes a sua proteção, é preciso merecê-la por vossos bons sentimentos, esforçando-vos principalmente para que sejais melhor que a vossa inimiga. Como quereis que eles vos defendam, se não valeis mais que ela? Pensai que em outras existências tereis censura a vos fazer;  o que vos acontece é uma expiação; se quiserdes fazê-la cessar, será preciso que melhoreis e proveis vossas boas intenções, começando por vos mostrardes boa e caridosa para com os inimigos. A própria Fredegunda será tocada e talvez fareis o arrependimento entrar no seu coração. Refleti. – Eu o farei. – Fazei-o logo e dizei comigo: ‘Meu Deus, eu perdoo a Fredegunda o mal que ela me fez; aceito-o como uma prova e uma expiação que mereci. Perdoai minhas próprias faltas, como eu perdoo as dela. E vós, Espíritos bons que me cercais, abri o seu coração a melhores sentimentos e me dai a força que me falta’ Prometeis orar por ela todos os dias? – Prometo. – Está bem. Por meu lado, cuidarei de vós e dela; tende confiança. – Oh! Obrigado! algo me diz que isto logo vai acabar.”

Tendo dado conta dessa cena à Sociedade, foram transmitidas a respeito as seguintes instruções:

“O assunto de que vos ocupais comoveu os próprios Espíritos bons que, por sua vez, querem vir em auxílio desta moça com seus conselhos. Com efeito, ela apresenta um caso de obsessão muito grave; entre os que vistes e vereis ainda, pode-se pôr este no número dos mais sérios e, sobretudo, dos mais interessantes, pelas particularidades instrutivas já apresentadas e que ele vos oferecerá novamente.

“Como já vos disse, esses casos de obsessão se repetem frequentemente e fornecerão dois assuntos distintos de utilidade, primeiro para vós, depois para os que as sofrerem.

“Primeiro para vós, porque, assim como vários eclesiásticos contribuíram poderosamente para difundir o Espiritismo entre os que lhe eram completamente estranhos, também esses obsedados, cujo número se tornará muito importante para que deles não se ocupem de maneira superficial, mas ampla e profunda, abrirão bastante as portas da Ciência para que a filosofia espírita possa com eles nela penetrar e ocupar, entre gente de ciência e os médicos de todos os sistemas, o lugar a que tem direito.

“Depois para eles porque, no estado de Espírito, antes de encarnar-se entre vós, eles aceitaram essa luta, que lhes acarreta a possessão que sofrem, tendo em vista o seu adiantamento; e essa luta, acreditai, faz sofrer cruelmente seu próprio Espírito que, quando seu corpo, de certo modo, não é mais seu, tem a perfeita consciência do que se passa. Conforme tiverem suportado essa prova, cuja duração lhes podereis abreviar poderosamente por vossas preces, terão progredido mais ou menos. Porque, ficai certos, a despeito dessa possessão, sempre momentânea, eles guardam suficiente consciência de si mesmos para discernirem a causa e a natureza de sua obsessão.

“Para esta que vos ocupa, é necessário um conselho. As magnetizações que lhe faz suportar o Espírito encarnado, de que falastes, lhe são funestas sob todos os aspectos. Aquele Espírito é sistemático. E que sistema! Quem não reporta todas as suas ações à maior glória de Deus e se envaidece das faculdades que lhe foram concedidas, será sempre confundido; os presunçosos serão rebaixados, muitas vezes neste mundo e, infalivelmente, no outro. Cuidai, pois, meu caro Kardec, para que essas magnetizações cessem completamente, ou os mais graves inconvenientes resultarão de sua continuação, não só para a moça, mas ainda para o imprudente, que pensa ter às suas ordens todos os Espíritos das trevas e se lhes impor como chefe.

“Digo que vereis esses casos de possessão e de obsessão se desenvolverem durante um certo tempo, porque são úteis ao progresso da Ciência e do Espiritismo. É por isso que os médicos e os sábios enfim abrirão os olhos e aprenderão que há doenças cujas causas não estão na matéria, não devendo, por isso, ser tratadas pela matéria. Esses casos de possessão vão igualmente abrir ao magnetismo horizontes totalmente novos e lhe fazer dar um grande passo à frente pelo estudo, até agora tão imperfeito, dos fluidos. Auxiliado por esses novos conhecimentos e por sua íntima aliança com o Espiritismo, ele obterá grandes coisas. Infelizmente, no magnetismo como na Medicina, durante muito tempo ainda haverá homens que julgarão nada ter a aprender. Essas obsessões frequentes terão, também, um lado muito bom, porque, penetrado pela prece e pela força moral, é possível fazê-las cessar e adquirir o direito de expulsar os Espíritos maus e, pelo melhoramento de sua conduta, cada um buscará adquirir o direito que o Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido. Tende fé e confiança em Deus, que não permite que se sofra inutilmente e sem motivo.”

Hahnemann (Médium: Sr. Albert)

“Serei breve. Será muito fácil curar essa infeliz possessa. Os meios estavam implicitamente contidos nas reflexões há pouco emitidas por Allan Kardec. Não só é necessária uma ação material e moral, mas ainda uma ação puramente espiritual. Ao Espírito encarnado que, como Júlia, se acha em estado de possessão, é preciso um magnetizador experimentado e perfeitamente convicto da verdade espírita. Além disso, é necessário que seja de uma moralidade irrepreensível e sem presunção. Mas, para agir sobre o Espírito obsessor, faz-se mister a ação não menos enérgica de um Espírito bom desencarnado. Assim, pois, dupla ação: ação terrestre, ação extraterrestre; encarnado sobre encarnado, desencarnado sobre desencarnado; eis a lei. Se até agora essa ação não foi realizada, foi justamente para vos conduzir ao estudo e à experimentação desta interessante questão. É por isto que Júlia não se livrou mais cedo: ela devia servir para os vossos estudos.

“Isto vos demonstra o que, doravante, tereis de fazer, nos casos de possessão manifesta. É indispensável chamar em vosso auxílio o concurso de um Espírito elevado, desfrutando ao mesmo tempo de uma força moral e fluídica, como o excelente cura d’Ars; e sabeis que podeis contar com a assistência desse digno e santo Vianney. Quanto ao mais, nosso concurso é dado a todos os que nos chamarem em auxílio, com pureza de coração e fé verdadeira.

“Resumindo: Quando magnetizarem Júlia, será preciso proceder, inicialmente, pela fervorosa evocação do cura d’Ars e de outros Espíritos bons que se comunicam habitualmente entre vós, pedindo-lhes que atuem contra os Espíritos maus que perseguem essa jovem, e que fugirão diante de suas falanges luminosas. Também não esquecer que a prece coletiva tem uma força muito grande, quando feita por certo número de pessoas agindo em acordo, com uma fé viva e um ardente desejo de aliviar.”

Erasto (Médium: Sr. d’Ambel)

Estas instruções foram seguidas. Vários membros da Sociedade se entenderam para agir pela prece nas condições requeridas. Um ponto essencial era levar o Espírito obsessor a emendar-se, o que necessariamente deveria facilitar a cura. Foi o que se fez, evocando-o e lhe dando conselhos; ele prometeu não mais atormentar a senhorita Júlia e manteve a palavra. Um dos nossos colegas foi especialmente encarregado por seu guia espiritual de sua educação moral, com o que ficou satisfeito. Hoje esse Espírito trabalha seriamente por sua melhoria e pede uma nova encarnação para expiar e reparar suas faltas.

A importância do ensino, que decorre desse fato e das observações a que deu lugar, a ninguém escapará e cada um poderá nele haurir úteis instruções sobre a ocorrência. Uma observação essencial que o fato permitiu constatar e que se compreende sem dificuldade, é a influência do meio. É bem evidente que se o meio secunda por uma comunhão de vistas, de intenção e de ação, o doente se acha numa espécie de atmosfera homogênea de fluidos benfazejos, o que deve necessariamente facilitar e apressar o sucesso. Mas se houver desacordo, oposição; se cada um quiser agir à sua maneira, resultarão divergências, correntes contrárias que, forçosamente, paralisarão e, por vezes, anularão os esforços tentados para a cura. Os eflúvios fluídicos, que constituem a atmosfera moral, se forem maus, serão tão funestos a certos indivíduos quanto as emanações das regiões pantanosas.

(Continua…)

Por Allan Kardec, in: Revista Espírita (Jornal de Estudos Psicológicos), janeiro de 1864, edição FEB, tradução de Evandro Noleto Bezerra.

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Estudos da Revista Espírita

Sobre a possessão, manifestou-se Allan Kardec:

Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante. Eis um primeiro fato que o prova, apresentando o fenômeno em toda a sua simplicidade.

Várias pessoas se achavam um dia na casa de uma senhora, médium sonâmbula. De repente esta assumiu atitudes francamente masculinas, mudou a voz e, dirigindo-se a um dos assistentes, exclamou: “Ah! meu caro amigo, como estou contente por te ver!” Surpresos, perguntam o que isto significa. A senhora continua: “Como! meu caro, não me reconheces? Ah! é verdade; estou coberto de lama! Sou Carlos Z…” A este nome os assistentes se lembraram de um senhor, morto alguns meses antes, vitimado por um ataque de apoplexia, à beira de uma estrada; tinha caído num fosso, de onde lhe retiraram o corpo coberto de lama. Declarou que, querendo conversar com seu velho amigo, aproveitou o momento em que o Espírito da senhora A…, a sonâmbula, estava afastado de seu corpo, para tomar-lhe o lugar. Com efeito, tendo-se repetido a cena vários dias seguidos, a Sra. A… de cada vez tomava as poses e maneiras habituais do Sr. Charles, apoiando-se no encosto da poltrona, cruzando as pernas, torcendo o bigode, passando os dedos pelos cabelos, de sorte que, salvo as roupas femininas, poder-se-ia crer estar diante do Sr. Charles. Contudo, não havia transfiguração, como vimos em outras circunstâncias. Eis algumas de suas respostas:

– Já que tomastes posse do corpo da Sra. A…, poderíeis nele permanecer?

Resp. – Não, mas vontade não me falta.

– Por que não o podeis?

Resp. – Porque seu Espírito está sempre ligado ao seu corpo. Ah! se eu pudesse romper esse laço, eu lhe pregaria uma peça.

– Que faz durante este tempo o Espírito da Sra. A…?

Resp. – Está aqui ao lado, olhando para mim e rindo por me ver em suas vestes.

Estas conversas eram muito divertidas. O Sr. Charles tinha sido um bon vivant e não desmentia seu caráter. Entregue à vida material, era pouco adiantado como Espírito, mas bom por natureza e benevolente. Apoderando-se do corpo da Sra. A…, não tinha qualquer intenção má, de sorte que aquela senhora nada sofria com a situação, a que se prestava de bom grado. É bom que se diga que ela não conhecera o Sr. Charles e não podia estar a par de suas maneiras. É ainda de notar que os assistentes não pensavam nele, a cena não foi provocada e ele veio espontaneamente.

Aqui a possessão é evidente e ressalta ainda melhor dos detalhes, cuja enumeração seria demasiado longa; mas é uma possessão inocente e sem inconvenientes. Já o mesmo não ocorre quando se trata de um Espírito maléfico e mal-intencionado. Pode ter consequências tanto mais graves quanto mais tenazes são esses Espíritos, o que muitas vezes se torna difícil livrar o paciente, do qual fazem sua vítima. Eis um exemplo recente, que nós mesmos tivemos oportunidade de observar e que se constituiu em sério objeto de estudo para a Sociedade de Paris:

A senhorita Júlia, doméstica, nascida na Sabóia, com vinte e três anos, caráter muito afável, sem qualquer instrução, desde algum tempo era susceptível a acessos de sonambulismo natural, que duravam semanas inteiras. Nesse estado consagrava-se a seu trabalho habitual, sem que as pessoas estranhas desconfiassem de sua situação; seu trabalho era até mais cuidadoso; sua lucidez, notável; descrevia lugares e acontecimentos a distância com perfeita exatidão.

Há cerca de seis meses foi acometida de crises de caráter muito estranho, que sempre ocorriam no estado sonambúlico, o qual se tornara, de certo modo, seu estado normal. Contorcia-se e rolava pelo chão, como a se debater sob a opressão de alguém que a quisesse estrangular e, de fato, apresentava todos os sintomas do estrangulamento. Acabava vencendo esse ser fantástico, agarrava-o pelos cabelos, acabrunhava-o com golpes, injúrias e imprecações, apostrofando-o incessantemente com o nome de Fredegunda, infame regente, rainha impudica, criatura vil e manchada por todos os crimes, etc. Tripudiava como se a pisoteasse com raiva, arrancando-lhe as roupas e os adereços. Coisa bizarra, tomando-se ela própria por Fredegunda, golpeava-se repetidamente nos braços, no peito e no rosto, dizendo: “Toma! toma! é bastante infame Fredegunda? Queres sufocar-me, mas não o conseguirás; queres meter-te em minha caixa, mas eu te expulsarei dela.” Minha caixa era o termo de que se servia para designar o seu corpo. Nada poderia pintar melhor o acento frenético com o qual, rangendo os dentes, ela pronunciava o nome de Fredegunda, nem as torturas que sofria nesses momentos.

Um dia, para ver-se livre de sua adversária, tomou de uma faca e tentou ferir-se; foi detida a tempo, evitando-se um acidente. Coisa não menos notável é que jamais tomou qualquer dos presentes por Fredegunda; a dualidade era sempre nela mesma e era contra si mesma que dirigia o seu furor quando o Espírito estava nela, e contra um ser invisível quando dele ela se havia desembaraçado. Para os outros era meiga e benevolente, mesmo nos momentos de maior exasperação.

Essas crises, verdadeiramente aterradoras, muitas vezes duravam horas e se repetiam várias vezes por dia. Quando acabavam por vencer Fredegunda, esta caía num estado de prostração e de acabrunhamento de que só saía pouco a pouco, mas que lhe deixava uma grande fraqueza e dificuldade de falar. Sua saúde estava profundamente alterada; nada podia comer e por vezes ficava oito dias sem alimentar-se. Para ela as melhores iguarias tinham gosto horrível, levando-a a rejeitá-las. Dizia que era obra de Fredegunda, que a queria impedir de comer.

Dissemos acima que a moça não recebeu qualquer instrução. Em vigília jamais ouvira falar de Fredegunda, nem de seu caráter, nem do papel que representou. Ao contrário, em estado sonambúlico, sabe-o perfeitamente e diz ter vivido em seu tempo. Não era Brunehaut, como a princípio se supôs, mas outra pessoa, ligada à sua corte.

Outra observação, não menos importante, é que, quando começaram as crises, a senhorita Júlia jamais se havia ocupado de Espiritismo, cujo nome lhe era desconhecido. Ainda hoje, em vigília, ela lhe é estranha e nele não crê. Só o conhece no estado sonambúlico, e somente depois que começou a ser cuidada. Assim, tudo quanto disse foi espontâneo.

Diante de uma situação tão estranha, uns atribuem o estado dessa moça a uma afecção nervosa; outros a uma loucura de caráter especial, opinião que, à primeira vista, tinha uma aparência de realidade. Declarou um médico que, no estado atual da Ciência, nada podia explicar semelhantes fenômenos, e que não via nenhum remédio. Todavia, pessoas experimentadas no Espiritismo reconhecem sem dificuldade que ela estava sob o império de uma subjugação das mais graves, e que lhe poderia ser fatal. Sem dúvida, quem não a tivesse visto senão nos momentos de crise e só tivesse considerado a estranheza de seus atos e palavras, teria dito que era louca e lhe haveria infligido o tratamento dos alienados que, sem sombra de dúvida, teria provocado uma loucura verdadeira; mas esta opinião deveria ceder diante dos fatos.

No estado de vigília sua conversa é a de uma pessoa de sua condição e em conformidade com a sua falta de instrução; sua inteligência chega a ser vulgar. Já no estado de sonambulismo o quadro se modifica completamente: nos momentos de calma ela raciocina com muito senso, justeza e verdadeira profundidade. Ora, seria loucura singular esta que aumentasse a dose de inteligência e de julgamento. Só o Espiritismo pode explicar essa aparente anomalia. No estado de vigília, sua alma ou Espírito está comprimido por órgãos que lhe não permitem senão um desenvolvimento incompleto; no estado de sonambulismo, a alma, emancipada, está em parte liberta de seus laços e goza da plenitude de suas faculdades. Nos momentos de crise, suas palavras e atos são excêntricos somente para os que não creem na ação dos seres do mundo invisível. Vendo apenas o efeito, e não remontando à causa, eis por que todos os obsidiados, subjugados e possessos passam por loucos. Nos manicômios sempre houve, em todos os tempos, pretensos loucos dessa natureza e que seriam facilmente curados se não nos obstinássemos a neles ver apenas uma doença orgânica.

Como, porém, a senhorita Júlia não tivesse recursos, uma família de verdadeiros e sinceros espíritas concordou em tomá-la a seu serviço, mas, na sua situação, ela deveria ser muito mais um estorvo do que uma utilidade, e era preciso um verdadeiro devotamento para cuidar dela. Mas essas pessoas foram bem recompensadas, primeiro pelo prazer de praticar uma boa ação, depois pela satisfação de haver contribuído poderosamente para a sua cura, hoje completa. Dupla cura, porque não só a senhorita Júlia se libertou, mas sua inimiga converteu-se a melhores sentimentos.

Eis o que testemunhamos numa dessas lutas terríveis, que não durou menos de duas horas, quando pudemos observar o fenômeno nos mínimos detalhes e no qual reconhecemos de imediato uma completa analogia com os dos possessos de Morzine.

A única diferença é que em Morzine (1) os possessos se entregavam a atos contra os indivíduos que os contrariavam, e falavam do diabo que tinham em si, pois os haviam convencido de que era o diabo. Em Morzine a senhorita Júlia teria chamado Fredegunda de Diabo.

Num próximo artigo exporemos com detalhes as diversas fases desta cura e os meios empregados para tal fim; além disso, relataremos as notáveis instruções que os Espíritos deram a respeito, assim como as importantes observações que ensejaram, concernentes ao magnetismo.

Por Allan Kardec, in: Revista Espírita (Jornal de Estudos Psicológicos), dezembro de 1863, edição FEB, tradução de Evandro Noleto Bezerra.

(1) Ver instrução sobre os possessos de Morzine, Revista Espírita de dezembro de 1862, janeiro, fevereiro, abril e maio de 1863.

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