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Archive for fevereiro \01\UTC 2014

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: OBJEÇÕES [*]

Jesus e Kardec

Dentre as objeções, há algumas sedutoras, pelo menos na aparência, que podem induzir ao erro por serem tiradas da observação dos fenômenos espíritas e serem feitas por pessoas respeitáveis.

Uma delas é que a linguagem de alguns Espíritos não parece digna da elevação que se supõe em seres sobrenaturais. Mas, se considerarmos o resumo da Doutrina que apresentamos, seguramente se concluirá o que os próprios Espíritos nos ensinam: eles não são iguais nem em conhecimento, nem em qualidades morais, e que não se deve tomar ao pé da letra tudo o que dizem. Cabe às pessoas sensatas distinguir o bom do mau. Seguramente, os que, em função disso, concluem que apenas temos contato com seres maldosos, cuja única ocupação é a de mistificar, não têm conhecimento das comunicações que se recebem nas reuniões, onde apenas se manifestam Espíritos Superiores; caso contrário, não pensariam assim. É lastimável que a casualidade os tenha levado a ver apenas o lado mau do mundo espírita, pois é difícil imaginar que por uma tendência de simpatia tenham atraído para si Espíritos maus, mentirosos ou aqueles cuja linguagem é revoltante de tão grosseira, em vez dos bons Espíritos. No máximo, poderíamos concluir que a solidez dos princípios dos opositores da Doutrina Espírita não é bastante poderosa para afastar o mal e que, encontrando um certo prazer em satisfazer sua curiosidade, os maus Espíritos aproveitam a oportunidade para se introduzir entre eles, enquanto os bons se afastam.

Julgar a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão pouco lógico quanto julgar o caráter de um povo pelo que se diz e se faz numa reunião de alguns amalucados ou de pessoas de má fama, e da qual não participam nem os sábios, nem as pessoas sensatas. Essas pessoas se encontram na situação de um estrangeiro que, chegando a uma grande capital pelo mais pobre e feio subúrbio, julgasse todos os habitantes pelos costumes e a linguagem desse bairro ínfimo. No mundo dos Espíritos, há também uma sociedade de bons e de maus. Portanto, que os opositores da Doutrina estudem bem o que se passa entre os Espíritos Superiores e ficarão convencidos de que a cidade celeste encerra outra coisa além da ralé do povo, a camada mais baixa da sociedade. Mas, perguntam, os Espíritos Superiores vêm até nós? A isso respondemos: Não fiqueis no subúrbio; vede, observai e julgai. Os fatos estão aí para todos, a menos que sejam a elas que se apliquem essas palavras de Jesus: “Têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem”.

Uma variante dessa opinião consiste em ver somente nas comunicações espíritas, e em todos os fenômenos a intervenção de um poder diabólico, novo Proteu que se revestiria de todas as formas para melhor nos enganar. Não a consideramos à altura de um exame sério, por isso não nos deteremos nela; encontra-se respondida por aquilo que dissemos; acrescentaremos somente que, se fosse assim, seria preciso convir que o diabo é algumas vezes muito sábio, razoável e, sobretudo, muito moral, ou, então, que há também bons diabos.

Como acreditar, de fato, que Deus somente permita ao Espírito do mal se manifestar para nos perder, sem nos dar, por contrapeso, os conselhos dos bons Espíritos? Se Ele não o pode impedir, é impotente; se o pode e não o faz, é incompatível com sua bondade; qualquer destas suposições seria uma blasfêmia. Notai que admitir a comunicação dos maus Espíritos é reconhecer em princípio as manifestações; portanto, a partir do momento que elas existem, isso somente pode acontecer com a permissão de Deus; como acreditar sem impiedade que Ele permita o mal com a exclusão do bem? Semelhante doutrina seria contrária às mais simples noções do bom senso e da religião.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 10.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: QUE ESPÍRITOS? [*]

Jesus, Kardec, Emmanuel e Chico

Um fato interessante, dizem, é que somente se fala com Espíritos de pessoas conhecidas e pergunta-se por que só eles se manifestam. Essa afirmativa é um erro proveniente, como muitos outros, de uma observação superficial. Entre os Espíritos que se comunicam espontaneamente há para nós muito mais desconhecidos do que ilustres. Eles se designam por um nome qualquer e, muitas vezes, por um nome figurado ou característico. Quanto aos que se evocam, a menos que não seja um parente ou um amigo, é bastante natural evocar os que são conhecidos. O nome das pessoas ilustres impressiona mais, é por isso que são mais notados.

Considera-se estranho também que Espíritos de homens ilustres venham familiarmente ao nosso chamado e se ocupem, por vezes, de coisas insignificantes em comparação com as que realizaram durante a sua vida. Não há nada de espantoso para aqueles que sabem que o poder ou a consideração que esses homens desfrutaram na Terra não lhes dá nenhuma supremacia no mundo espiritual; os Espíritos confirmam nisso as palavras do Evangelho: “Os grandes serão rebaixados e os pequenos, elevados”, o que se deve entender como a categoria que cada um de nós virá a ocupar. Assim aquele que foi o primeiro na Terra pode ser um dos últimos no mundo espiritual; aquele diante do qual curvávamos a cabeça numa vida pode vir entre nós agora como o mais humilde operário, porque, ao deixar a vida, deixou toda a sua grandeza, e o mais poderoso monarca talvez possa estar abaixo do último de seus soldados.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 11.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: A IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS [*]

ESDE

Um fato que a observação demonstrou e foi confirmado pelos próprios Espíritos é que os Espíritos inferiores apresentam-se, muitas vezes, com nomes conhecidos e respeitados. Quem pode nos assegurar que aqueles que dizem ter sido, por exemplo, Sócrates, Júlio César, Carlos Magno, Fénelon, Napoleão, Washington, etc. tenham realmente animado esses personagens? Essa dúvida existe entre alguns adeptos fervorosos da Doutrina Espírita; admitem a intervenção e a manifestação dos Espíritos, mas se perguntam como comprovar sua identidade. Essa comprovação é, de fato, muito difícil de estabelecer, já que não pode ser apurada de uma maneira tão prática e simples como por meio de um documento de identidade. Pode, entretanto, ser feita por alguns indícios.

Quando o Espírito de alguém que conhecemos pessoalmente se manifesta, seja de um parente ou de um amigo, por exemplo, especialmente se morreu há pouco tempo, ocorre, em geral, que sua linguagem está em perfeita relação com o seu caráter; isso já é um indício de identidade. Mas não há mais dúvida quando esse Espírito fala de coisas particulares, lembra de fatos de família apenas conhecidos pelo interlocutor. Um filho não se equivocaria certamente com a linguagem de seu pai ou de sua mãe, nem os pais com a de seu filho. Algumas vezes, nessas evocações, acontecem coisas surpreendentes, de forma a convencer o mais incrédulo. O cético mais endurecido fica, então, maravilhado com as revelações inesperadas que lhe são feitas.

Uma outra circunstância muito característica vem fundamentar a identidade do Espírito. Dissemos que a letra do médium muda geralmente com o Espírito evocado, e que essa escrita se reproduz exatamente igual a cada vez que o mesmo Espírito se apresenta. Constatou-se, muitas vezes, que para as pessoas mortas há pouco tempo, essa escrita tem uma semelhança marcante com a da pessoa quando viva; têm-se visto assinaturas de uma exatidão perfeita. Estamos longe de dar esse fato, embora observado, como regra e, principalmente, como uma regra constante; nós o mencionamos como algo digno de nota.

Somente os Espíritos que atingiram um certo grau de purificação estão desligados de toda influência corporal. Porém, quando não estão completamente desmaterializados (é essa a expressão da qual se servem), conservam a maior parte das ideias, das tendências e até mesmo das manias que tinham na Terra, o que demonstra o meio de os reconhecermos; como também numa grande quantidade de fatos e detalhes, que somente uma observação atenta e firme pode revelar. Veem-se escritores discutir suas próprias obras ou suas doutrinas, aprovar ou condenar certas partes; outros Espíritos a lembrar fatos ignorados ou pouco conhecidos de sua vida ou de sua morte; enfim, detalhes que são pelo menos provas morais de identidade, as únicas a que se pode recorrer quando se trata de coisas abstratas, isto é, que estão fora da realidade.

Se, portanto, a identidade do Espírito evocado pode ser, até certo ponto, estabelecida em alguns casos, não há razão para que não o seja em outros, e se, em relação às pessoas cuja morte ocorreu há mais tempo, não há os mesmos meios de controle, tem-se sempre o da linguagem e do caráter que revelam, porque, seguramente, o Espírito de um homem de bem não falará como um perverso ou um devasso. Quanto aos Espíritos que se apresentam exibindo nomes respeitáveis, logo se traem pela linguagem e pelos ensinamentos. Aquele que dissesse ser Fénelon, por exemplo, e embora acidentalmente ofendesse o bom senso e a moral, mostraria, por esse simples fato, a fraude. Se, ao contrário, os pensamentos que exprimisse fossem sempre puros, sem contradições e constantemente à altura do caráter de Fénelon, não haveria motivos para duvidar de sua identidade. De qualquer maneira, seria preciso supor que um Espírito que apenas prega o bem pode conscientemente empregar a mentira, e isso sem utilidade. A experiência nos ensina que os Espíritos da categoria, do mesmo caráter e animados pelos mesmos sentimentos se reúnem em grupos ou em famílias; que o número de Espíritos é incalculável e estamos longe de conhecê-los todos; e que até mesmo a maior parte deles não tem nome para nós. Um Espírito da mesma categoria de Fénelon pode vir em seu lugar, muitas vezes, enviado a seu pedido; apresentar-se sob seu nome, pois lhe é idêntico, e substituí-lo, porque precisamos de um nome para fixar nossas ideias. Mas o que importa, em definitivo, que um Espírito seja realmente ou não o de Fénelon? A partir do momento que somente diz coisas boas e que fala como o próprio Fénelon falaria, é um bom Espírito; o nome com que se apresenta é indiferente e, muitas vezes, é apenas um meio de fixar nossas ideias. O mesmo não seria admissível nas evocações dos familiares; mas aí, como dissemos, a identidade pode ser estabelecida por provas de alguma forma evidentes.

Contudo, é certo que a substituição dos Espíritos pode ocasionar uma série de enganos e resultar em erros e, muitas vezes, em mistificações; essa é uma dificuldade do Espiritismo prático. Mas nunca dissemos que fosse algo fácil, nem que se pudesse aprendê-lo brincando, como não se faz com qualquer outra ciência. Nunca será demais repetir que ele pede um estudo assíduo e, frequentemente, bastante prolongado; não podendo provocar os fatos, é preciso esperar que se apresentem por si mesmos e, frequentemente, são conduzidos por circunstâncias com as quais nem ao menos se sonha. Para o observador atento e paciente, os fatos se produzem e então ele descobre milhares de detalhes característicos que representam fachos de luz. É assim também nas ciências comuns, enquanto o homem superficial vê numa flor apenas uma forma elegante, o sábio descobre nela tesouros para o pensamento.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 12.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: CONTRADIÇÕES ENTRE OS ESPÍRITOS [*]

Kardec e Jesus

As observações nos levam a dizer algumas palavras a respeito de uma outra dificuldade, a da divergência na linguagem dos Espíritos.

Como os Espíritos são muito diferentes uns dos outros nos conhecimentos e na moralidade, é evidente que a mesma questão pode ser por eles explicada com sentidos opostos, conforme a categoria que ocupam, como se ela fosse proposta, entre os homens, ora a um sábio, ora a um ignorante ou a um gracejador de mau gosto. O ponto essencial, já o dissemos, é saber a quem se dirige.

Mas, dizem os críticos: como se explica que os Espíritos reconhecidos por seres superiores não estejam sempre de acordo? Diremos, primeiramente, que além da causa que acabamos de assinalar há outras que podem exercer uma certa influência sobre a natureza das respostas, independentemente da qualidade dos Espíritos. Este é um ponto importante cuja explicação somente será dada pelo estudo. É por isso que dizemos que esses estudos requerem uma atenção firme, uma observação profunda e, principalmente, como em todas as ciências humanas, continuidade e perseverança. São necessários anos para fazer um médico medíocre, três quartos da vida para fazer um sábio; como pretender, em algumas horas, adquirir a ciência do infinito? Portanto, não nos enganemos: o estudo do Espiritismo é imenso, toca em todas as questões da metafísica22 e da ordem social, é todo um mundo que se abre diante de nós; será de espantar que seja preciso tempo, e muito tempo, para o adquirir?

A contradição, aliás, não é sempre tão evidente quanto pode parecer. Não vemos, todos os dias, homens que, ensinando a mesma ciência, divergem quanto à definição de uma coisa, seja ao empregar termos diferentes, seja ao encará-la sob um outro ponto de vista, ainda que a idéia fundamental permaneça a mesma? Que se conte, se possível, o número de definições que foram dadas pela gramática! Acrescentamos ainda que a forma da resposta depende, muitas vezes, da forma da pergunta. Seria ingenuidade encontrar uma contradição onde há apenas uma diferença de palavras. Os Espíritos Superiores não se prendem de nenhum modo à forma; para eles, o fundo do pensamento é tudo.

Tomemos por exemplo a definição da alma. Por essa palavra comportar várias significações, os Espíritos podem, assim como nós, divergir na definição que lhe dão: um poderá dizer que é o princípio da vida; um outro, chamá-la de centelha anímica23; um terceiro, dizer que é interna; um quarto, que é externa, etc., e todos terão razão em seu ponto de vista. Poderíamos até mesmo acreditar que alguns deles, em vista da sua definição, ensinassem teorias materialistas e, entretanto, não é assim. Ocorre o mesmo em relação a Deus; Ele será: o Princípio de todas as coisas, o Criador do universo, a Soberana inteligência, o Infinito, o Grande Espírito, etc., etc. e decisivamente será sempre Deus. Citamos, por fim, a classificação dos Espíritos. Eles formam uma escala contínua desde o grau inferior até o superior; portanto, a classificação não é rígida: um poderia estabelecer três classes; um outro, cinco, dez ou vinte, à vontade, sem estar, por isso, em erro. Também as ciências humanas nos oferecem o exemplo: cada sábio tem o seu sistema, os sistemas mudam, mas a ciência não. Que se aprenda botânica pelo sistema de Lineu, de Jussieu ou de Tournefort e não será menos botânica. Deixemos de dar, portanto, às coisas de pura convenção mais importância do que merecem, para nos ocupar daquilo que é verdadeiramente sério, e a reflexão nos fará descobrir, muitas vezes, naquilo que parece mais contraditório, uma semelhança que nos havia escapado à primeira vista.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 13.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: MANEIRAS E MÉTODOS / ERROS DE ORTOGRAFIA [*]

Não nos deteríamos sobre a objeção de alguns críticos às falhas de ortografia de alguns Espíritos, se ela não nos permitisse fazer, sobre o fato, uma observação essencial. A ortografia deles, é preciso dizer, nem sempre é impecável; mas é necessário não ter mais nenhum argumento para fazer disso objeto de uma crítica séria, alegando que, uma vez que os Espíritos sabem tudo, devem saber ortografia. Poderíamos apontar numerosos pecados desse gênero cometidos por mais de um sábio da Terra, o que não lhes tira em nada o mérito; entretanto, há nesse fato uma questão mais importante: para os Espíritos e principalmente para os Espíritos Superiores, a ideia é tudo, a forma não é nada. Desligados da matéria, sua linguagem é rápida como o pensamento, uma vez que é o próprio pensamento que se comunica sem intermediário; em vista disso, devem sentir-se constrangidos, pouco à vontade, quando são obrigados, para se comunicar conosco, a se servir de formas longas e confusas da linguagem humana, agravadas pela insuficiência e imperfeição dessa linguagem para exprimir todas as ideias; é o que eles próprios dizem. É curioso também ver os meios que empregam para atenuar esse inconveniente. Certamente faríamos o mesmo se tivéssemos que nos exprimir numa língua mais longa em palavras e expressões e mais pobre do que aquela que nos é usual. É o embaraço que experimenta o homem de gênio, como podemos imaginar, se impacientando com a lentidão de sua caneta, que está sempre atrás de seu pensamento. Concebe-se, por essa razão, que os Espíritos deem pouca importância ao detalhe da pobreza das regras ortográficas, quando se trata especialmente de um ensinamento sério. Já não é maravilhoso, aliás, que eles se exprimam indiferentemente em todas as línguas e as compreendam todas? Entretanto, não devemos concluir que a correção convencional da linguagem lhes seja desconhecida; eles a observam quando necessário. É assim, por exemplo, que a poesia ditada por eles, muitas vezes, desafia a crítica mais meticulosa, e isso apesar da ignorância do médium.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 14.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: A LOUCURA E O ESPIRITISMO [*]

Há também pessoas que veem perigo em todos os lugares e em tudo o que não conhecem e rapidamente apontam uma consequência desfavorável no fato de algumas pessoas, ao estudar a Doutrina Espírita, terem perdido a razão. Como é que homens de bom senso podem ver nesse fato uma objeção séria? Não ocorre o mesmo com todas as preocupações intelectuais sobre um cérebro fraco? Sabe-se lá o número de loucos e maníacos produzidos pelos estudos matemáticos, médicos, musicais, filosóficos e outros? É preciso, por causa disso, banir esses estudos? O que prova esse fato? Muitas vezes os trabalhos corporais deformam ou mutilam os braços e as pernas, que são os instrumentos da ação material; pode acontecer que os trabalhos da inteligência danifiquem o cérebro, o instrumento pelo qual o pensamento se expressa. Mas se o instrumento está quebrado, o Espírito está intacto, e quando se libertar do corpo vai se achar de posse e na plenitude de suas capacidades. É dessa maneira, como homem, um mártir do trabalho.

Qualquer uma das grandes preocupações do Espírito pode ocasionar a loucura: as ciências, as artes e a própria religião mostram-nos vários casos. A loucura tem como causa principal uma predisposição orgânica do cérebro, que o torna mais ou menos acessível a algumas impressões. Se houver predisposição para a loucura, ela assume um caráter de preocupação principal, se transformando em ideia fixa, podendo tanto ser a dos Espíritos, em quem com eles se ocupou, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma arte, de uma ciência, da maternidade ou a de um sistema político-social. É provável que um louco religioso se tornasse um louco espírita, se o Espiritismo fosse sua preocupação dominante, como um louco espírita o teria sido sob uma outra forma, segundo as circunstâncias.

Digo, portanto, que o Espiritismo não tem nenhum privilégio nessa relação; e digo mais, afirmo que, se bem compreendido, o Espiritismo é uma defesa contra a loucura.

Entre as causas mais comuns de superexcitação cerebral, ou seja, do desequilíbrio mental, estão as decepções, as infelicidades, as afeições contrariadas, que são, ao mesmo tempo, as causas mais frequentes de suicídio. Assim é que o verdadeiro espírita vê as coisas deste mundo de um ponto de vista mais elevado; elas lhe parecem tão pequenas, tão mesquinhas, diante do futuro que o espera; a vida é para ele tão curta, tão passageira, que as tribulações são, a seus olhos, apenas incidentes desagradáveis de uma viagem. O que em qualquer outro produziria uma violenta emoção pouco o afeta; sabe, além de tudo, que os desgostos da vida são provas que servem para o seu adiantamento, se as suporta sem lamentar, porque será recompensado segundo a coragem com que as tiver suportado. Suas convicções lhe dão uma resignação que o protege do desespero e, por consequência, de uma causa frequente de loucura e suicídio. Ele sabe, por outro lado, por observar as comunicações com os Espíritos, o destino dos que encurtaram voluntariamente seus dias, e esse quadro é muito sério para fazê-lo refletir; também o número de pessoas que por causa disso se detiveram sobre essa inclinação fatal é considerável. Esse é um dos resultados do Espiritismo. Que os incrédulos riam dele quanto quiserem. Desejo-lhes as consolações que ele proporciona a todos que se dão ao trabalho de sondar-lhe as misteriosas profundezas.

Ao número das causas de loucura é preciso ainda adicionar o dos temores, e entre estes o medo do diabo, que provocou o desequilíbrio de mais de um cérebro. Sabe-se lá o número de vítimas que se fez ao amedrontar as fracas imaginações com esse quadro que se procura tornar sempre mais pavoroso com terríveis detalhes? O diabo que, dizem, apenas mete medo às criancinhas, é um freio para torná-las ajuizadas, como o bicho-papão e o lobisomem. Contudo, quando não têm mais medo deles, tornam-se piores; e esse belo resultado não é levado em conta no número das epilepsias25 causadas pelo abalo em cérebros delicados. A religião seria bem fraca se não gerasse medo, sua força correria risco, seria abalada. Felizmente não é assim, há outros meios de ação sobre as almas; o Espiritismo lhe aponta os mais eficazes e os mais sérios, se souber usá-los com proveito; mostra a realidade das coisas e com isso neutraliza os efeitos desastrosos de um temor exagerado.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 15.

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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA: TEORIAS ENGANADORAS [*]

Resta-nos examinar duas objeções; as únicas que merecem verdadeiramente esse nome, porque são baseadas em teorias racionais. Ambas admitem a realidade de todos os fenômenos materiais e morais, mas excluem a intervenção dos Espíritos.

A primeira dessas teorias diz que todas as manifestações atribuídas aos Espíritos não seriam outra coisa senão efeitos magnéticos. Os médiuns entrariam num estado que se poderia chamar de sonambulismo acordado, fenômeno do qual toda pessoa que estudou o magnetismo pôde verificar e testemunhar. Nesse estado, as capacidades intelectuais adquirem um desenvolvimento anormal; o círculo das percepções intuitivas se estende além dos limites de nossa concepção normal. Dessa maneira, o médium tiraria de si mesmo e por efeito de sua lucidez tudo o que diz e todas as noções que transmite, mesmo sobre assuntos que lhe são completamente desconhecidos quando se acha no seu estado normal.

Não seremos nós que contestaremos a força do sonambulismo, do qual vimos os extraordinários fenômenos e os estudamos em todas as fases durante mais de 35 anos. Concordamos, de fato, que muitas manifestações espíritas podem se explicar por ele, mas uma observação paciente e atenta mostra uma multidão de fatos em que a intervenção do médium, a não ser como instrumento passivo, é materialmente impossível. Àqueles que partilham dessa opinião diremos como aos outros: vede e observai, pois seguramente não vistes tudo. Em seguida propomos duas considerações tiradas de sua própria doutrina. De onde veio a teoria espírita? É um sistema imaginado por alguns homens para explicar os fatos? De modo algum. Quem a revelou? Precisamente esses mesmos médiuns dos quais exaltais a lucidez. Se, portanto, essa lucidez é exatamente como a supondes, por que teriam eles atribuído aos Espíritos o que possuíam em si mesmos? Como dariam esses ensinamentos tão precisos, lógicos e sublimes sobre a natureza dessas inteligências extra-humanas? De duas coisas, uma: ou são lúcidos ou não o são; se o são e se se pode confiar em sua veracidade, não haveria como, sem contradição, admitir que não estão com a verdade. Em segundo lugar, se todos os fenômenos tivessem origem no médium, seriam idênticos no mesmo indivíduo e não se veria a mesma pessoa manifestar-se em linguagens diferentes e exprimir alternativamente as mais polêmicas ideias. Essa falta de unidade nas manifestações obtidas por um mesmo médium prova a diversidade das fontes; se, portanto, não se pode encontrá-las todas no médium, é preciso procurá-las fora dele.

Uma outra opinião diz que o médium é a fonte das manifestações, mas, em vez de as tirar de si mesmo, assim como o pretendem os partidários da teoria sonambúlica, as tira do meio ambiente. Assim sendo, o médium seria uma espécie de espelho refletindo todas as ideias, pensamentos e conhecimentos das pessoas que o rodeiam; não diria nada que já não fosse conhecido pelo menos por alguns. Não se poderia negar, e isso é mesmo um princípio da Doutrina, a influência exercida pelos assistentes sobre a natureza das manifestações. Porém, essa influência é diferente da que os opositores supõem existir, e daí a ser o médium o eco dos pensamentos daqueles que o rodeiam há uma grande distância, visto que milhares de fatos demonstram indiscutivelmente o contrário. Portanto, há nisso um erro grave que atesta, uma vez mais, o perigo das conclusões prematuras. Essas pessoas, não podendo negar a existência de um fenômeno que a ciência comum não pode explicar e não querendo admitir a presença dos Espíritos, o explicam a seu modo. Esta teoria, embora enganosa, seria atraente se pudesse abraçar todos os fatos, mas não é assim. Quando se lhes demonstra com a clareza mais lógica que algumas comunicações do médium são completamente estranhas ao pensamento, aos conhecimentos, às próprias opiniões de todos os assistentes, que essas comunicações são, muitas vezes, espontâneas e contradizem todas as idéias preconcebidas, eles não recuam e nem se dão por convencidos. A irradiação, dizem, estende-se muito além do círculo imediato que nos rodeia; o médium é o reflexo de toda a humanidade, de forma que, se não tira suas inspirações das coisas que estão ao seu redor, vai procurá-las fora, na cidade, no país, em todo o globo e mesmo em outras esferas.

Não creio que se encontre nessa teoria uma explicação mais simples e mais provável que a do Espiritismo, embora revele uma causa bem mais maravilhosa. Porém, a ideia de que seres inteligentes povoam os espaços e que, estando em contato permanente conosco, nos comunicam seus pensamentos, nada tem que choque mais a razão do que se supor que essa irradiação universal vinda de todos os pontos do universo possa concentrar-se no cérebro de um indivíduo.

Ainda uma vez, e esse é um ponto importante sobre o qual nunca é demais insistir: tanto a teoria sonambúlica quanto a que se poderia chamar refletiva foram imaginadas por alguns homens; são opiniões individuais criadas para explicar um fato, enquanto a Doutrina dos Espíritos não é de concepção humana. Foi ditada pelas próprias inteligências que se manifestaram quando ninguém sequer a concebia e que a própria opinião geral a repelia. Portanto, perguntamos: de onde os médiuns foram tirar uma doutrina que não existia no pensamento de ninguém na Terra? E perguntamos mais: por que estranha coincidência milhares de médiuns espalhados por todos os pontos do globo, que nunca se viram, combinaram dizer a mesma coisa? Se o primeiro médium que apareceu na França revelou a influência das mesmas opiniões já aceitas nos Estados Unidos, por que razão teria ido procurar essas ideias a 2000 léguas além dos mares, entre um povo de costumes e linguagem estranhos, em vez de procurá-las ao seu redor? Mas há uma outra particularidade sobre a qual não se tem pensado o suficiente. É que as primeiras manifestações, tanto na França quanto nos Estados Unidos, não ocorreram pela escrita, nem pela fala, mas por pancadas que concordavam com as letras do alfabeto formando palavras e frases. Foi por esse meio que as inteligências que se revelavam declararam ser Espíritos. Se pudermos, portanto, supor que haja a intervenção do pensamento dos médiuns nas comunicações verbais ou escritas, o mesmo não pode ter ocorrido com as pancadas, cuja significação não poderia ser conhecida com antecedência.

Poderíamos citar muitos outros fatos que demonstram, na inteligência que se manifesta, uma individualidade evidente e uma independência absoluta de vontade. Remetemos, entretanto, os discordantes a uma observação mais atenta, e se querem estudar sem prevenção e não concluir antes de terem visto tudo, reconhecerão a fragilidade de sua teoria para explicar os fatos. Nós nos limitaremos a colocar as questões seguintes: por que a inteligência que se manifesta, seja ela qual for, recusa-se a responder a algumas questões sobre assuntos perfeitamente conhecidos, como, por exemplo, sobre o nome ou a idade do interrogador, sobre o que tem na mão, o que fez na véspera e o que fará no dia seguinte, etc.? Se o médium é de fato o espelho do pensamento dos assistentes, nada haveria de ser mais fácil do que dar essas respostas.

Os adversários retrucam o argumento ao perguntar, por sua vez, por que os Espíritos, que devem saber tudo, não podem responder a coisas tão simples, de acordo com o axioma26 Quem pode o mais pode o menos, concluindo, daí, que não são respostas dos Espíritos. Se um ignorante ou um zombador se apresentasse diante de uma assembleia de sábios e perguntasse, por exemplo, por que faz dia em pleno meio-dia, acredita-se que alguém se desse ao trabalho de responder seriamente? Seria razoável por isso concluir, pelo silêncio ou desdém que se desse ao interrogador, que os componentes dessa assembleia são tolos? Portanto, é precisamente porque os Espíritos são superiores que não respondem às questões inúteis e ridículas e não querem se pôr em evidência, é por isso que se calam ou dizem se ocupar com coisas mais sérias.

Perguntaremos, por fim, por que os Espíritos vêm e vão frequentemente num dado momento, e por que, passado esse momento, não há preces nem súplicas que os possam trazer de volta? Se o médium somente agisse como um reflexo do impulso mental dos assistentes, é evidente que, nessa circunstância, o concurso de todas as vontades reunidas deveria estimular sua clarividência. Se não cede ao desejo da assembleia, fortalecido também por sua própria vontade, é porque obedece a uma influência estranha a ele mesmo e aos que estão à sua volta, e que essa influência demonstra, por esse fato, sua independência e sua individualidade.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, item 16.

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