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Archive for dezembro \21\UTC 2012

ENTREVISTA COM JERÔNIMO MENDONÇA [*]

 “Ninguém pode ser feliz no egoísmo.” 

Jerônimo Mendonça

Jerônimo Mendonça, O Gigante Deitado

Dois meses antes de sua desencarnação, o saudoso confrade mineiro externou seu pensamento acerca de pena de morte, fé, dor, vivência evangélica, viciações e felicidade. Natural de Ituiutaba (MG), onde nasceu em 1º de novembro de 1939, Jerônimo Mendonça Ribeiro (foto) faleceu aos 50 anos de idade em 26 de novembro de 1989, pouco mais de 20 anos atrás. Foi ele, como sabemos, um grande trabalhador, palestrante e escritor espírita, que muito trabalhou pela divulgação da Doutrina Espírita. Tetraplégico e preso por muitos anos a uma cama ortopédica, além de cego, ficou conhecido no meio espírita como O Gigante Deitado.

Brasil Coração do Mundo

– Jerônimo, nota-se na sociedade brasileira, de um modo geral, um grande descrédito para com a administração pública, desesperança no quadro social e indiferença no trato com os valores nobres da vida. Por que isso vem ocorrendo?

Jerônimo Mendonça – Indubitavelmente que isso é fruto de uma transição, que o próprio planeta em si atravessa. E o Brasil não poderia ser diferente, dentro das conjunturas, das provações que todos nós ainda temos que passar. Mas temos que acreditar no amanhã melhor, confiar nos verdadeiros homens de bem, que sabem que tudo isso passa deixando conosco o resultado benéfico de uma experiência. Afinal, a vida é uma escola permanente de exemplos constantes, e nós espíritas temos que ver essa transição com os olhos do otimismo colocados no futuro. Hoje a dificuldade, os contratempos, a inversão de valores, a violência, o desamor, mas amanhã será o reinado de paz e de esperanças. Queiramos ou não, o Brasil será o Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

Pena de Morte

– Nunca se falou tanto em pena de morte no Brasil como na atualidade. Movimentos de pressão se levantam pedindo a pena capital para os causadores de delitos mais graves. Como o senhor vê isso?

Jerônimo Mendonça – Nós sabemos perfeitamente que a violência não se extingue com a violência. É como se nós tentássemos apagar um incêndio atirando-lhe combustível. A pena de morte para nós seria um retrocesso, principalmente nós brasileiros, que somos um povo pacífico por índole. E um dos mandamentos da Lei de Deus é muito claro e vem de forma imperativa: “Não matarás”. Então a violência não resolverá o problema da violência. Vamos orar para que esse processo de ideias obsessivas não alcance o emocional e a razão dos homens de bem, porque, apesar de todos os pesares, o amor é o grande caminho da felicidade humana.

– Como deve posicionar-se o cristão que verdadeiramente deseja contribuir para a implantação de uma nova ordem social na Terra?

Jerônimo Mendonça – Cumprindo cada qual de nós, com dignidade, os nossos deveres. Sendo fiéis aos nossos postulados, com mais espírito de desprendimento e abnegação pela causa humana e social. Sabendo que o discípulo de hoje deve espelhar-se no retrato vivo do Mestre de sempre, que soube que o caminho mais perfeito dessa integração com Deus e com a felicidade perfeita é o dever cumprido. Cada qual de nós saibamos cumprir os nossos deveres dentro de nossos postos de trabalho, eis aí o resultado da vitória.

Vivência Evangélica

– Jerônimo, se já temos notícias dos imprescindíveis ensinamentos de Jesus, por que encontramos tantas dificuldades em vivenciá-los?

Jerônimo Mendonça – É porque nós temos o evangelho mais na inteligência do que no sentimento. Ele ainda vive mais na esfera mental, no raciocínio, do que dentro do coração como renovação. Mas um momento chegará em que todos nós, olhando o panorama do pretérito, para aquelas verdadeiras almas que tudo fizeram na implantação do Cristianismo nascente, suportando fogueiras, feras e tantas calamidades que a história registra, possamos mirar nesse espelho do passado para termos a dignidade espiritual do presente e sabermos testemunhar Jesus em quaisquer lances da vida.

A Dor e o Sofrimento

– A dor e o sofrimento são criações de Deus?

Jerônimo Mendonça – Jamais. Deus, na sua infinita perfeição e bondade, jamais criaria o sofrimento para os seus filhos. O sofrimento e a dor são desvios do livre-arbítrio do homem através dos milênios. Toda atitude nossa contra as leis de amor do nosso Pai significa sofrimento em nós. Deus jamais puniria a humanidade com fome, miséria, dor física e dor moral. Nós é que criamos essa conjuntura cármica. Todo plantio errado dá colheita torta.

Viciações Tóxicas

– Jerônimo, o que você poderia dizer aos pais que, desesperados, notam os filhos a trilhar pelos caminhos sombrios da vida, perdendo-se pelas veredas das fantasias e das viciações?

Jerônimo Mendonça – Mais amor a esses filhos, mais espírito de entendimento das dificuldades psicológicas e dos processos obsessivos que às vezes comandam as cabeças jovens. O Espírito volta à reencarnação trazendo consigo as tendências não superadas do pretérito e às vezes não encontra um lar tão bem estruturado evangelicamente; então, ao invés de essas tendências serem combatidas, elas são alimentadas pelos exemplos ainda falhos dos seus próprios tutores espirituais. Então, paciência, fé, muita abnegação, muita capacidade de perdoar e entregá-los a Deus, sem deixar o barco à matroca.

O Que é Ter Fé?

– Jesus afirmou que quem tivesse fé do tamanho de um grão de uma mostarda poderia transportar montanhas. Perguntamos: O que é ter fé?

Jerônimo Mendonça – Fé, segundo o Espírito Emmanuel, é visão da vida, a lógica da vida em si. O lavrador sabe que na semente está embrionariamente a árvore do amanhã, mas se ele não tiver fé na sua própria certeza de que plantando dá, aquela semente vai permanecer apenas como embrião. Então fé não nos vem por osmose, é uma conquista de cada um no tempo e no espaço, e dentro da Doutrina Espírita essa fé perde aquele caráter apenas místico para ser uma fé eminentemente racional. É conhecer, é saber de onde viemos, o que estamos fazendo, o que é a vida e para onde vamos. É ter noção de rumo e de caminho: esta é a fé.

Felicidade      

– Jerônimo, como podemos encontrar a felicidade que tanto almejamos?

Jerônimo Mendonça – A felicidade é uma troca, o amor é fusão. Ninguém pode ser feliz no egoísmo, no exclusivismo, entregue à marginalidade de uma situação, qualquer que ela seja. Felicidade é participação, é a improvisação da felicidade dos outros, pois é dando que se recebe.

[*] Transcrito de O Consolador, Ano 3, n.º 138, 20 de dezembro de 2009.

JERÔNIMO MENDONÇA,  A ALEGRIA DE VIVER

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O Passe

O PASSE [*]

Saía Jesus da cidade de Jericó, acompanhado de seus discípulos e de grande multidão, quando um cego, de nome Bartimeu, começou a clamar, em altas vozes:

– Jesus, filho de David, tem compaixão de mim! Algumas pessoas ordenaram-lhe que se calasse, mas o cego empolgado pelo desejo de ser beneficiado pelo generoso Rabi, insistia:

– Jesus, filho de David, tem compaixão de mim! Ouvindo-o, o mestre nazareno recomendou aos discípulos que o trouxessem à sua presença.

– Que queres que eu faça?

– Perguntou-lhe. Senhor, que eu veja.

Compadecendo-se, Jesus estendeu-lhe as mãos, tocando em seus olhos, dizendo:

– Vai em paz. A tua fé te salvou.

No mesmo instante o cego voltou a enxergar e, jubiloso, integrou-se no grupo que acompanhava o Messias.

Transfusão de Energias

Jesus curou o cego de Jericó aplicando-lhe o passe magnético, terapia que desenvolveu largamente durante seu apostolado, no que foi imitado pelos discípulos que, em seu nome, aliviavam males do corpo e da alma.

O Espiritismo revive o mesmo tratamento, em toda a sua simplicidade, sem magia, sem mistério, sem ritualismo. O companheiro que se coloca diante do paciente, impondo-lhe as mãos sobre a cabeça, é apenas alguém de boa vontade que concentra seus melhores sentimentos no propósito de favorecê-lo com uma transfusão de energias magnéticas, de dois tipos: o magnetismo humano, do próprio passista; o magnetismo espiritual, de benfeitores desencarnados que controlam todo o processo.

A aplicação do passe no Centro Espírita é mera especialização de um dom próprio do ser humano. Todos podemos doar magnetismo curador. Muitos o fazem, inconscientemente.Há múltiplos exemplos: a mãe que acalenta o filho inquieto ao seio; o médico à cabeceira do doente preocupado com sua recuperação; o religioso que ora por alguém; a benzedeira que atende à criança… .

As Duas Condições Básicas

A eficiência do passe está associada a dois fatores: O primeiro é a capacidade do passista, como Jesus foi um modelo perfeito, fácil concluir que o melhor será aquele que mais se aproxime de sua orientação, desenvolvendo valores de serenidade, equilíbrio, dedicação e, sobretudo, amor pelos semelhantes.

Embora os companheiros vinculados à tarefa, estejam longe deste padrão, a Espiritualidade suprirá suas limitações desde que não se acomodem às próprias fraquezas cultivando empenho de renovação e desejo de servir.

O segundo fator, tão importante quanto a capacidade do passista, é a receptividade do paciente. Imaginemos uma transfusão sanguínea. O doador faz sua parte mas, no momento de injetar o sangue nas veias do doente, este retira a agulha nele introduzida, inviabilizando a transferência. O mesmo podemos dizer da transfusão da energia magnética, que, para completar-se, exige empenho do beneficiário no sentido de sintonizar com aquele que o beneficia. Aqui entra a fé. “A tua fé te salvou” proclama Jesus, dirigindo-se a Bartimeu. Não se tratava de um prêmio à crença irrestrita, mas uma dramática demonstração de que é preciso confiar plenamente nos recursos mobilizados em nosso favor a fim de que possamos assimilá-los integralmente.

O Complemento Indispensável

Outro ponto importante a considerar: O passe é sempre uma terapia de superfície. Pode amenizar os efeitos – doenças e perturbações – mas não atinge as causas profundas, que se exprimem em nossa maneira, nas falhas de comportamento, nos vícios alimentados.

Por isso, se nos limitarmos a recebê-los sem analisar mais profundamente as origens de nossos males, eles logo recrudescerão. Saúde e equilíbrio não se sustentam em concessões gratuitas da Divindade. São conquistas que todos devemos realizar com o esforço da renovação, tendo por roteiro o Evangelho. Nele há tônicos infalíveis que operam prodígios de bem estar quando deles fazemos uso.

Todos os conhecemos sobejamente: a compreensão, a tolerância, a paciência, o perdão, a caridade, o amor, a misericórdia, a bondade…

Oportuno lembrar que freqüentemente Jesus dispensava os beneficiários de suas curas, recomendando: “vai e não peques mais para que não te suceda pior.”

Importante Considerar

Há questão do merecimento. Compromissos cármicos, decorrentes de nossos desatinos do passado, geralmente não podem ser removidos. Nenhum passista, por mais eficiente; nenhuma fé, por mais ardorosa, fará brotar uma perna em alguém que nasceu sem ela. Há determinados problemas físicos e psíquicos tão irremediáveis como a falta de um membro.

Mesmo assim, se cumprirmos as disciplinas do passe – fé e empenho de renovação –, ele nos beneficiará muito, revitalizando nossas forças e minimizando nossos males, para que enfrentemos o resgate do pretérito sem tormentos e sem atropelos, com o coração em paz. Será algo semelhante a colocar abençoada almofada sobre os ombros, a fim de que se faça mais leve a cruz de nossa redenção.

[*] Revista Espírita Allan Kardec, ano IV nº 16 – pág. 15, 16. Autor: Richard Simonetti.

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Sobre os Anencéfalos

SOBRE OS ANENCÉFALOS [*]

Nada no Universo ocorre como fenômeno caótico, resultado de alguma desordem que nele predomine. O que parece casual, destrutivo, é sempre efeito de uma programação transcendente, que objetiva a ordem, a harmonia.

De igual maneira, nos destinos humanos sempre vige a Lei de Causa e Efeito, como responsável legítima por todas as ocorrências, por mais diversificadas apresentem-se.

O Espírito progride através das experiências que lhe facultam desenvolver o conhecimento intelectual enquanto lapida as impurezas morais primitivas, transformando-as em emoções relevantes e libertadoras.

Agindo sob o impacto das tendências que nele jazem, fruto que são de vivências anteriores, elabora, inconscientemente, o programa a que se deve submeter na sucessão do tempo futuro.

Harmonia emocional, equilíbrio mental, saúde orgânica ou o seu inverso, em forma de transtornos de vária denominação, fazem-se ocorrência natural dessa elaborada e transata proposta evolutiva.

Todos experimentam, inevitavelmente, as consequências dos seus pensamentos, que são responsáveis pelas suas manifestações verbais e realizações exteriores.

Sentindo, intimamente, a presença de Deus, a convivência social e as imposições educacionais, criam condicionamentos que, infelizmente, em incontáveis indivíduos dão lugar às dúvidas atrozes em torno da sua origem espiritual, da sua imortalidade.

Mesmo quando se vincula a alguma doutrina religiosa, com as exceções compreensíveis, o comportamento moral permanece materialista, utilitarista, atado às paixões defluentes do egotismo.

Não fosse assim, e decerto, muitos benefícios adviriam da convicção espiritual, que sempre define as condutas saudáveis, por constituírem motivos de elevação, defluentes do dever e da razão.

Na falta desse equilíbrio, adota-se atitude de rebeldia, quando não se encontra satisfeito com a sucessão dos acontecimentos tidos como frustrantes, perturbadores, infelizes…

Desequipado de conteúdos superiores que proporcionam a autoconfiança, o otimismo, a esperança, essa revolta, estimulada pelo primarismo que ainda jaz no ser, trabalhando em favor do egoísmo, sempre transfere a responsabilidade dos sofrimentos, dos insucessos momentâneos aos outros, às circunstâncias ditas aziagas, que consideram injustas e, dominados pelo desespero fogem através de mecanismos derrotistas e infelizes que mais o degrada, entre os quais o nefando suicídio.

Na imensa gama de instrumentos utilizados para o autocídio, o que é praticado por armas de fogo ou mediante quedas espetaculares de edifícios, de abismos, desarticula o cérebro físico e praticamente o aniquila…

Não ficariam aí, porém, os danos perpetrados, alcançando os delicados tecidos do corpo perispiritual, que se encarregará de compor os futuros aparelhos materiais para o prosseguimento da jornada de evolução.

*

É inevitável o renascimento daquele que assim buscou a extinção da vida, portando degenerescências físicas e mentais, particularmente a anencefalia.

Muitos desses assim considerados, no entanto, não são totalmente destituídos do órgão cerebral.

Há, desse modo, anencéfalos e anencéfalos.

Expressivo número de anencéfalos preserva o cérebro primitivo ou reptiliano, o diencéfalo e as raízes do núcleo neural que se vincula ao sistema nervoso central…

Necessitam viver no corpo, mesmo que a fatalidade da morte após o renascimento, reconduza-os ao mundo espiritual.

Interromper-lhes o desenvolvimento no útero materno é crime hediondo em relação à vida. Têm vida sim, embora em padrões diferentes dos considerados normais pelo conhecimento genético atual…

Não se tratam de coisas conduzidas interiormente pela mulher, mas de filhos, que não puderam concluir a formação orgânica total, pois que são resultado da concepção, da união do espermatozóide com o óvulo.

Faltou na gestante o ácido fólico, que se tornou responsável pela ocorrência terrível.

Sucede, porém, que a genitora igualmente não é vítima de injustiça divina ou da espúria Lei do Acaso, pois que foi corresponsável pelo suicídio daquele Espírito que agora a busca para juntos conseguirem o inadiável processo de reparação do crime, de recuperação da paz e do equilíbrio antes destruído.

Quando as legislações desvairam e descriminam o aborto do anencéfalo, facilitando a sua aplicação, a sociedade caminha, a passos largos, para a legitimação de todas as formas cruéis de abortamento.

 … E quando a humanidade mata o feto, prepara-se para outros hediondos crimes que a cultura, a ética e a civilização já deveriam haver eliminado no vasto processo de crescimento intelecto-moral.

Todos os recentes governos ditatoriais e arbitrários iniciaram as suas dominações extravagantes e terríveis, tornando o aborto legal e culminando, na sucessão do tempo, com os campos de extermínio de vidas sob o açodar dos mórbidos preconceitos de raça, de etnia, de religião, de política, de sociedade…

A morbidez atinge, desse modo, o clímax, quando a vida é desvalorizada e o ser humano torna-se descartável.

As loucuras eugênicas, em busca de seres humanos perfeitos, respondem por crueldades inimagináveis, desde as crianças que eram assassinadas quando nasciam com qualquer tipo de imperfeição, não servindo para as guerras, na cultura espartana, como as que ainda são atiradas aos rios, por portarem deficiências, para morrer por afogamento, em algumas tribos primitivas.

Qual, porém, a diferença entre a atitude da civilização grega e o primarismo selvagem desses clãs e a moderna conduta em relação ao anencéfalo?

O processo de evolução, no entanto, é inevitável, e os criminosos legais de hoje, recomeçarão, no futuro, em novas experiências reencarnacionistas, sofrendo a frieza do comportamento, aprendendo através do sofrimento a respeitar a vida…

*

Compadece-te e ama o filhinho que se encontra no teu ventre, suplicando-te sem palavras a oportunidade de redimir-se.

Considera que se ele houvesse nascido bem formado e normal, apresentando depois algum problema de idiotia, de hebefrenia, de degenerescência, perdendo as funções intelectivas, motoras ou de outra natureza, como acontece amiúde, se também o matarias?

Se exercitares o aborto do anencéfalo hoje, amanhã pedirás também a eliminação legal do filhinho limitado, poupando-te o sofrimento como se alega no caso da anencefalia.

Aprende a viver dignamente agora, para que o teu seja um amanhã de bênçãos e de felicidade.

[*] Joanna de Angelis. (Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, na reunião mediúnica da noite de 11 de abril de 2011, quando o Supremo Tribunal de Justiça, estudava a questão do aborto do anencéfalo, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia).

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Saulo e Nós

SAULO E NÓS [*]

Departamento de Estudo Minucioso do Evangelho – DEME da UEM.

“Senhor, que queres que eu faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te…” At. 9:6

Quando Saulo de Tarso, homem, segundo Emmanuel, nos seus 30 anos, belo e cheio de virilidade, sonhador e leal às leis de Moisés, se encontra com Jesus, nas proximidades das portas que o levariam a Damasco, ele cai em si. O fariseu, candidato ao comando da maior representação religiosa de seu tempo, o Sinédrio, encontrava-se com aquele ao qual ele perseguia, na esperança de se livrar do homem que lhe tirara as esperanças da convivência com sua querida Abgail [1].

A mensagem de Atos, detalhada na obra de Emmanuel, é para nós um alerta sobre o nosso compromisso com o Senhor. Não encontraremos no Evangelho as respostas convenientes que atendam aos nossos próprios interesses, mas segundo Alcione [2], “… um roteiro de trabalho, que é preciso conhecer e seguir, em que pesem às maiores dificuldades.”

Poderíamos pensar que a vida de Saulo está distante das nossas, mas a mensagem do Evangelho é atual. Para entendê-la é preciso, segundo Honório Abreu [3]: “Buscar cuidadosamente o seu conteúdo espiritual. Este é o que dá vida, universalidade e eternidade à Boa Nova”. Portanto, é preciso nos colocarmos na situação de suas personagens e verificarmos qual é a nossa posição perante o convite amoroso do Cristo.

Estudando minuciosamente o versículo mencionado veremos que apesar de não correspondermos à condição física e social de Saulo em sua época, trazemos em nosso íntimo características que nos aproximam do irmão encarnado há dois mil anos na Palestina. Particularmente no que se refere às nossas expectativas perante a vida, também somos sonhadores, jovens almas reencarnadas. Entretanto, ainda nos preocupamos principalmente em buscarmos o melhor para atendermos aos nossos interesses mundanos. Evidentemente que procuramos ser fiéis às leis que nos regem, procurando a condição de cidadãos dignos. Trabalhamos no sentido de construirmos fidelidade às leis divinas, através da prática da Doutrina Espírita que nos abriga na presente encarnação.

Todavia, somos imperfeitos, e ainda não somos fiéis e limpos de consciência como Saulo. Estamos ainda muito interessados nos benefícios imediatos que o mundo nos oferece e nos deixamos levar pelo vigor, não necessariamente do corpo físico, mas de nossas mentes vaidosas. E, dentro deste novo conceito de virilidade aplicado ao corpo mental, nos vemos em busca de ganhos pessoais que a vida nos apresenta através, nem sempre dos valores monetários, mas do endosso pelos que nos cercam das virtudes inferiores que cultivamos, como o orgulho, a vaidade e o egoísmo.

Entretanto todos nós, ainda que bem intencionados como Saulo, alcançaremos as portas de Damasco de nossa escala evolutiva. Ela surge quando, por misericórdia divina, chegamos ao momento, indispensável para toda criatura, do encontro com os propósitos do Cristo. O que faremos diante da cegueira causada pela imensa luz que nos envolverá? Certamente isto ocorrerá porque a luz inevitável da verdade do espírito e de suas necessidades íntimas gera sempre o contraste com a nossa penumbra íntima.

Continuamos a fugir deste encontro como temos feito há séculos. Parece que sim, porque os espíritos nos informam que a justiça da reencarnação é de nos dar quantas oportunidades forem necessárias ao aprendizado que precisamos empreender em nosso próprio favor [4]. E as obras de André Luiz trazem inúmeros exemplos de planejamentos reencarnatórios onde o espírito de boas intenções se compromete a se melhorar naquilo que sente serem seus maiores obstáculos para a transformação moral. Mas, quantos de nós cumprimos, à risca, os planos elaborados? Afinal, ao levantarmos o véu do entendimento do Evangelho, descobrimos que são nos planejamentos reencarnatórios que se encontram as portas de Damasco tão ansiadas por todos nós. É o parente difícil que nos exige cautela na condução da palavra em cada dia, o trabalho desgastante que nos exige confiança que parecem estar acima de nossas forças. E diante da decisão do como agir, o que fazemos? Munimo-nos da coragem do diálogo com o Cristo, como fez Saulo? Ou acovardamos e respondemos à situação consoante a inferioridade que ainda carregamos em nós?

Qual foi a orientação de Jesus a Saulo? Levanta-te! Interessante observarmos a lógica do Mestre. Saulo, ao reconhecer no visitante ilustre as qualidades morais que ele ainda não experimentara, cai. Esta não é a queda da derrota, mesmo porque ele se dispõe a servir, ao abrir seu coração e dizer com humildade, “o que queres que eu faça”. Bela atitude do rabino que apresenta de forma clara os valores elevados, ainda que mascarados pela vaidade que ele cultivava, respeitando a autoridade superior que o confrontava, mas agora, em nome do Amor.

Não se desespera, não tenta justificar seus objetivos infelizes, apenas se oferece para novas abordagens de luta.

Também nós, como Saulo, podemos nos posicionar com humildade diante do convite do Cristo. Se quisermos segui-Lo, não na posição de quem dá as regras, mas na de quem reconhece sua necessidade de aprendizado constante, devemos em primeiro lugar nos colocarmos na condição do ouvinte. O que Jesus tem a nos dizer diante daquela situação? Evidentemente que precisamos refletir em torno de situações práticas que nos alcem do campo teórico para o das realizações. Podemos pensar em uma situação na qual somos confrontados pelo desafio de um filho que, no vigor de sua independência legal, e questionando a nossa autoridade, nos desafia a convencê-lo a não se lançar a aventuras de final de semana com seus pares escolhidos entre aqueles filhos de outros que, também jovens, se entregam aos prazeres do mundo. Neste momento devemos deixar que a luz do Senhor nos encegueça o Homem Velho da autoridade colocada em xeque, e perguntemos na prece silenciosa entre as lágrimas íntimas: Senhor, auxilia-nos a confiarmos em Ti e diz-nos que queres que façamos para atender ao filho amado.

A resposta a Saulo, com certeza repercutirá em nossos corações: levanta- -te! O convite é para  que nos ergamos intimamente na confiança na Providência Divina, confiemos no Senhor, e possamos exemplificar aquilo que nos permitirá oferecer o melhor de nós mesmos. Saulo levantou-se para servir Jesus, enquanto para muitos se apresentava como o fracassado traidor das convenções humanas. Enfrentou o Sinédrio, onde antes era recebido com esperança e louvor, foi abandonado pelos amigos nos quais antes confiara e que agora não o compreendiam e foi afastado do círculo familiar para o qual ele outrora representava o orgulho de uma raça. Levantarmos? Como, Senhor? Hoje não somos Saulo, mas somos amigos, irmãos, pais, e o nosso levantar é íntimo. Na situação acima apresentada o Homem Velho se afasta e deixa que o Homem Novo se apresente na prece silenciosa entre as lágrimas da compreensão: Senhor guia o filho amado, e fala-lhe ao coração, no momento em que ele precise se posicionar, o quanto ele é amado por nós. Levantemo-nos, como Saulo, e ao perguntarmos ao Senhor o que Ele quer que façamos, tenhamos a coragem de Paulo que se posicionou perante si mesmo:

Comovido pelas bênçãos que recebera das esferas mais elevadas da vida, Saulo chorava como nunca. Estava cego e separado dos seus. Dolorosas angústias represavam-se-lhe no coração opresso. Mas a visão do Cristo redivivo, sua palavra inesquecível, sua expressão de amor lhe estavam presentes na alma transformada. Jesus era o Senhor, inacessível à morte. Ele orientaria os seus passos no caminho, dar-lhe-ia novas ordens, secaria as chagas da vaidade e do orgulho que lhe corroíam o coração; sobretudo, conceder-lhe-ia forças para reparar os erros dos seus dias de ilusão. (Emmanuel, pág. 249) [1].

Saulo de Tarso, com a profunda sinceridade que lhe caracterizava as mínimas ações, só queria saber que Deus havia mudado de resolução a seu respeito. Ser-lhe-ia fiel até ao fim. (Emmanuel, pág. 250) [1].

[1] XAVIER, F. C., Paulo e Estevão. Pelo espírito Emmanuel. 44ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 2009. Cap. 10, 1ª parte (No caminho de Damasco).

[2] XAVIER, F. C., Renúncia. Pelo espírito Emmanuel. 20ª ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1992. Cap. 3, 2ª parte (Testemunhos de fé), p. 331.

[3] ABREU, H. O. (coordenador), Luz Imperecível, 1ª ed. Belo Horizonte, MG: UEM, 1997. Apresentação, p. 25.

[4] KARDEC, A., O livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 71ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1991, cap. 4, parte 3ª.

[*] Transcrito de “O Espírita Mineiro”, n.º 319, pág. 12, Julho/Agosto/Setembro – 2012. Órgão da União Espírita Mineira.

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JUSTIÇA E DIREITOS NATURAIS [*]

873. O sentimento de justiça é natural ou é resultado de ideias adquiridas?

– É tão natural que vos revoltais com o pensamento de uma injustiça. O progresso moral desenvolve, sem dúvida, esse sentimento, mas não o dá: Deus o colocou no coração do homem; por isso encontrareis, muitas vezes, nos homens simples e primitivos noções mais exatas de justiça do que naqueles que têm muito conhecimento.

874. Se a justiça é uma lei natural, por que os homens a entendem de maneiras diferentes, e que um considere justo o que parece injusto a outro?

– É que à Lei se misturam frequentemente paixões que alteram esse sentimento, como acontece com a maior parte dos outros sentimentos naturais, e fazem o homem ver as coisas sob um falso ponto de vista.

875. Como se pode definir a justiça?

– A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um.

875-a. O que determina esses direitos?

– São determinados por duas coisas: a lei humana e a lei natural. Tendo os homens feito leis apropriadas aos seus costumes e caráter, essas leis estabeleceram direitos que variaram com o progresso dos conhecimentos. Observai que as vossas leis atuais, sem serem perfeitas, já não consagram os mesmos direitos da Idade Média. No entanto, esses direitos antiquados, que vos parecem monstruosos, pareciam justos e naturais naquela época. O direito estabelecido pelos homens nem sempre, portanto, está de acordo com a justiça. Regula apenas algumas relações sociais, enquanto, na vida particular, há uma imensidão de atos unicamente inerentes à consciência de cada um.

876. Fora do direito consagrado pela lei humana, qual é a base da justiça fundada sobre a lei natural?

– O Cristo disse: “Não façais aos outros o que não quereis que vos façam”. Deus colocou no coração do homem a regra de toda a verdadeira justiça pelo desejo que cada um tem de ver respeitados os seus direitos.

Na incerteza do que fazer em relação ao semelhante numa determinada circunstância, o homem deve perguntar-se como desejaria que se fizesse com ele na mesma circunstância: Deus não poderia lhe dar um guia mais seguro do que a própria consciência.

O critério da verdadeira justiça é, de fato, desejar aos outros o que se deseja para si mesmo, e não desejar para si o que se desejaria para os outros, o que não é a mesma coisa. Como não é natural desejar o mal para si, se tomarmos o desejo pessoal como norma e ponto de partida, estaremos sempre certos de apenas desejar o bem para o próximo. Em todos os tempos e todas as crenças, o homem tem sempre procurado fazer prevalecer seu direito pessoal. A sublimidade da religião cristã foi tomar o direito pessoal por base do direito do próximo.

877. A necessidade para o homem de viver em sociedade lhe impõe obrigações particulares?

– Sim, e a primeira de todas é a de respeitar os direitos dos semelhantes. Aquele que respeitar esses direitos sempre será justo. Em vosso mundo, onde tantos homens não praticam a lei da justiça, cada um usa de represálias, e isso gera perturbação e confusão em vossa sociedade. A vida social dá direitos e impõe deveres recíprocos.

878. Podendo o homem se enganar sobre a extensão de seu direito, quem pode fazê-lo conhecer esse limite?

– O limite do direito será sempre o de dar aos seus semelhantes o mesmo que quer para si, em circunstâncias iguais e reciprocamente.

878-a. Mas se cada um conceder a si mesmo os direitos de seu semelhante, em que se torna a subordinação em relação aos superiores? Não causará a anarquia de todos os poderes?

– Os direitos naturais são os mesmos para todos, desde o menor até o maior; Deus não fez uns mais puros que outros, e todos são iguais diante d’Ele. Esses direitos são eternos. Porém, os direitos que o homem estabeleceu desaparecem com suas instituições. Cada um percebe bem sua força ou fraqueza e saberá sempre ter uma certa consideração com aquele que a mereça por sua virtude e sabedoria. É importante destacar isso, para que os que se julgam superiores conheçam seus deveres e mereçam essa consideração. A subordinação não será comprometida quando a autoridade for exercida com sabedoria.

879. Qual deve ser o caráter do homem que praticasse a justiça em toda a sua pureza?

– Do verdadeiro justo, a exemplo de Jesus, porque praticaria também o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.

[*] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte III, Cap. XI, Lei de Justiça, Amor e Caridade.

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Gênese Espiritual

GÊNESE ESPIRITUAL [*]

 Princípio Espiritual

Decorre do princípio: “Todo efeito tendo uma causa, todo efeito inteligente há de ter uma causa inteligente”. As ações humanas denotam um princípio inteligente, que é corolário da existência de Deus, pois não é concebível a Soberana Inteligência a reinar eternamente sobre a matéria bruta. Sendo Deus soberanamente justo e bom, criou seres inteligentes não para lançá-los ao sofrimento e em seguida ao nada, mas para serem eternos, sobrevivendo à matéria e mantendo sua individualidade.

O princípio espiritual é independente do princípio vital, pois há seres que vivem e não pensam, como as plantas; “a vida orgânica reside num princípio inerente à matéria, independente da vida espiritual, que é inerente ao espírito”. Independe também do fluído cósmico universal, tendo existência própria e sendo, juntamente com o princípio material, os dois princípios constitutivos do universo. O elemento espiritual individualizado constitui o espírito, enquanto que o elemento material forma os “diferentes corpos da natureza, orgânicos e inorgânicos”. Todos os espíritos “são criados simples e ignorantes, com igual aptidão para progredir” por esforço próprio, através do trabalho imposto a todos até atingir a perfeição. Todos são igualmente objeto da solicitude divina, não havendo quaisquer favorecimentos.

Os mundos materiais fornecem aos espíritos “elementos de atividade para o desenvolvimento de suas inteligências”. Os seres espirituais progridem normalmente até atingir a perfeição relativa; como Deus criou desde toda a eternidade, quando do surgimento da Terra, já havia seres espirituais que tinham atingido “o ponto culminante da escala”, assim como outros “surgiam para a vida”.

União do Princípio Espiritual à Matéria

O corpo é “simultaneamente o envoltório e o instrumento do espírito”, sendo apropriado ao nível de trabalho que cabe ao espírito executar em cada fase do desenvolvimento de suas faculdades. Na realidade em cada encarnação o próprio espírito molda o corpo ajustando-o à “medida que experimenta a necessidade de manifestar novas faculdades”, que são rudimentares na fase de “infância intelectual”. Sendo material, o corpo depois de algum tempo se desorganiza e decompõe; extingue-se o princípio vital e o corpo morre, quando então o espírito o abandona como a uma roupa que se tornou imprestável. O que distingue, portanto, o homem colocando-o acima dos animais, “é o seu ser espiritual, seu Espírito”.

Hipótese Sobre a Origem do Corpo Humano

Espíritos humanos em estado primitivo teriam encarnado em corpos de macacos, modificando-os gradativamente pela procriação, dando origem assim a uma espécie nova que foi se aperfeiçoando até chegar à forma atual do corpo humano, enquanto que os macacos (com o princípio espiritual de macaco) continuaram a procriar como macacos. A Natureza não dá saltos e é provável que os primitivos humanos pouco diferissem dos macacos, havendo até hoje selvagens semelhantes a esses, só lhes faltando os pelos.

Encarnação dos Espíritos

Não podendo o espírito, por sua natureza etérea, agir diretamente sobre a matéria, faz-se necessário um intermediário, seu envoltório fluídico, semimaterial, extraído do fluído cósmico universal modificado; é o perispírito. Torna-se assim o espírito apto a atuar sobre a matéria tangível e todos os fluídos imponderáveis. O fluído perispirítico serve de veículo ao pensamento, transmitindo ordem de movimento ao corpo, como também levando ao “Espírito as sensações que os agentes exteriores produzam”.

No momento da concepção do corpo humano, expande-se o perispírito em forma de um laço fluídico, ligando-o molécula a molécula ao corpo em formação, em virtude da influência do princípio vito-material do gérmen. “Quando o gérmen chega ao seu pleno desenvolvimento, completa é a união; nasce então o ser para a vida exterior”. Por ocasião da desorganização do corpo deixa de atuar o princípio vital, causando a morte, passando então o perispírito a se desprender molécula a molécula, voltando à liberdade. “Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; esta é que determina a partida do Espírito”. O desencarne pode ser rápido, fácil suave e insensível ou lento, laborioso, horrivelmente penoso podendo durar meses, dependendo do estado moral do Espírito.

A partir do momento em que o Espírito é unido ao gérmen pelo laço fluídico, entra em estado de perturbação progressiva até que ao nascer acha-se totalmente inconsciente. Com a respiração da criança, inicia-se a recuperação das faculdades, qualidades e aptidões anteriormente adquiridas, muito embora perca o Espírito reencarnado a lembrança de seu passado, o que lhe permite recomeçar a tarefa na escalada do progresso em melhores condições, livre de humilhações decorrentes de erros passados. Seu passado se lhe desdobra aos olhos quando vem a desencarnar, quando então avalia o emprego de seu tempo. Durante o sono também se lembra de seu passado, pois está, por momentos, liberto dos liames carnais.

Segundo a opinião de alguns filósofos espiritualistas o princípio espiritual se individualiza através dos diversos graus da animalidade. Desenvolvidas as primeiras faculdades, recebe as faculdades especiais que caracterizam a alma humana. Esse sistema está de acordo com a grande Lei de Unidade, explica a finalidade da existência dos animais, porém as questões que suscita fogem à finalidade deste estudo, pelo que considera-se o Espírito a partir do momento em que entra na humanidade, dotado de senso moral e livre-arbítrio, sendo portanto responsável pelos seus atos.

As necessidades e vicissitudes da vida carnal força o Espírito a exercitar suas faculdades, desenvolvendo-as, resultando em seu progresso, enquanto que sua ação sobre a matéria auxilia no progresso do globo, colaborando assim com a obra do Criador. O Espírito passa maior tempo no mundo espiritual, sendo insignificante o período em que se encontra reencarnado. O progresso na vida espiritual vem da aplicação que faz dos conhecimentos e experiências adquiridos quando encarnado. A encarnação é necessidade inerente à inferioridade do Espírito. Torna-se punição somente quando estaciona na escala do progresso, por negligência ou má vontade, obrigado a recomeçar a tarefa de depuração. Por outro lado, pode o Espírito abreviar a extensão do período das encarnações, espiritualizando-se ampliando assim suas faculdades e percepções.

“O progresso material de um planeta acompanha o progresso moral de seus habitantes”, de modo que há mundos mais e menos avançados que a Terra. Os espíritos passam pelas classes de mundos, adquirindo sempre mais experiências e conhecimentos até não mais necessitarem encarnar, continuando a progredir por outros meios, até atingir o ponto culminante do progresso, quando passam a ser Mensageiros, Ministros diretos do Criador, no governo dos mundos. Dentro da Hierarquia espiritual todos os espíritos têm sua atribuição no mecanismo do Universo, desde o mais atrasado até o mais adiantado, de modo que no Universo existe sempre atividade e nunca ociosidade.

Muito embora fossem bastante imperfeitos (como seus corpos) os primeiros espíritos que encarnaram na Terra, seus caracteres e aptidões eram bastante diversificados; agrupavam-se segundo suas semelhanças e simpatia, povoando-se o planeta com “espíritos mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso”; espíritos afins reencarnaram em corpos de mesmo tipo, formando diferentes raças, perpetuando-lhes o caráter distintivo físico e moral. Não sendo uniforme o progresso, naturalmente as raças mais inteligentes se adiantaram às demais. Assim o espírito, à medida que atinge maior grau de progresso, reencarna em corpo de uma raça física apropriada, que lhe permita a manifestação de suas faculdades intelectuais e morais mais desenvolvidas.

Reencarnações

A reencarnação, consequência da Lei do Progresso, explica racionalmente o porque das diferenças sociais entre o mundo atual e o dos tempos dos bárbaros, pois se as almas vivessem somente uma vida, então Deus teria criado as atuais privilegiadas em relação às outras. Assim, as almas que viveram em tempos antigos são as mesmas de agora, acumulando o progresso adquirido nas encarnações sucessivas.

Várias etapas de aperfeiçoamento ocorrem num mesmo mundo, quando o espírito tem oportunidade de avaliar seu estágio, observando o exemplo de seus irmãos mais adiantados, possibilitando-lhe ainda a reparação de seus erros para com os outros; isto seria materialmente dificultado se cada etapa tivesse que ser cumprida em um mundo diferente. Somente após adquirirem todo o conhecimento possível num mesmo mundo, é que o espírito migra para outro, mais adiantado. Se a Terra servisse a uma única etapa no progresso do espírito, nenhuma utilidade teria p. ex., para uma criança que desencarna em tenra idade, após poucas horas ou meses de vida.

Emigrações e Imigrações dos Espíritos

Podem ser consideradas relativamente:

1) À população espiritual composta de espíritos desencarnados e que se encontram em estado de erraticidade na Terra (emigrações: passagem do mundo corpóreo para o espiritual; imigrações: passagem do mundo espiritual para o corporal);

2) À transfusão coletiva de espíritos de um mundo para o outro.

Os flagelos e os cataclismos representam partidas em massa de espíritos que cedem lugar a outros mais depurados, que reencarnam a fim de promover maior impulso no progresso das populações. Assim após “grandes calamidades que dizimam as populações” segue-se “uma era de progresso de ordem física, intelectual ou moral”.

Entre os mundos ocorrem emigrações e imigrações individuais ou, em circunstâncias especiais, em massas, constituindo novas raças de espíritos que, reencarnando assim que haja a espécie corporal apropriada, “constituem novas raças de homens”.

Raça Adâmica

Após encontrarem-se as raças primitivas espalhadas pelo planeta desde tempos imemoriais, surgiu uma raça mais inteligente, apta às artes e à ciência, que impeliu todas as outras ao progresso; seu aparecimento ocorreu há apenas alguns milhares de anos, ao contrário das primitivas, sendo comprovado pelos fatos geológicos e observações antropológicas. Foi denominada raça adâmica.

A criação do gênero humano a partir de um único indivíduo não pode prevalecer, senão vejamos:

1) Fisiologicamente, existem diferenças entre as raças inexplicáveis simplesmente pela ação do clima, p. ex., a cor negra “provém de um tecido especial subcutâneo, peculiar à espécie”. Assim, têm origem própria as raças negras, mongólicas e caucásicas, tendo nascido em diversas partes do globo, resultando de seu cruzamento as raças mistas secundárias.

2) Segundo a Gênese, Adão teria sido um homem inteligente, tendo seus descendentes logo construído cidades, lavrado a terra e trabalhado metais. Não é concebível que posteriormente tenham gerado povos atrasados, de rudimentar inteligência, existentes até nossos dias.

3) Documentos antigos provam que o Egito, a Índia e outros países como a América “já eram povoados e floresciam, pelo menos, três mil anos antes da era cristã, mil anos, portanto, depois da criação” de Adão. Seria impossível, em tão pouco tempo, à posteridade um só homem povoar a maior parte da Terra.

4) Admitindo-se a destruição de todo o gênero humano com o dilúvio, menos Noé e sua família, então o repovoamento da Terra teria ocorrido à partir dele; teriam então seus descendentes hebreus povoado em seis séculos todo o Egito e outros países, o que não seria possível.

Doutrina dos Anjos Decaídos e da Perda do Paraíso

Os mundos progridem na proporção do progresso moral de seus habitantes. Por ocasião da ascensão hierárquica de um mundo, sofre mutação sua população encarnada e desencarnada, quando então os espíritos que perseveram no mal “apesar de sua inteligência e do seu saber” são exilados para mundos menos adiantados, alguns ainda “na infância da barbárie”. Lá, passarão a aplicar sua “inteligência e a intuição dos conhecimentos que adquiriram ao progresso daqueles entre os quais passam a viver”. A intuitiva lembrança que guardam de seu mundo de origem é para eles como um paraíso que perderam por sua própria culpa. Para os habitantes de seu novo “hábitat” são tidos como anjos decaídos.

A Terra recebeu espíritos exilados de um mundo mais adiantado, embora não despojados de seu orgulho e maus instintos – a raça adâmica – cuja missão foi a de fazer progredir os homens, que se encontravam em estado primitivo de desenvolvimento.

Cristo foi o Salvador prometido por Deus, que lhes ensinou a Lei do Amor e da Caridade, mostrando o caminho para merecerem a “felicidade dos eleitos”.

A teoria do “pecado original” implica numa relação entre as almas nascidas no tempo de Adão e no tempo de Cristo, ou seja, espíritos reencarnados – quando então se justifica o envio de um Salvador aos espíritos exilados ao tempo de Adão, ainda manchados de vícios. O pecado original é, assim, “peculiar a cada indivíduo e não resultado da responsabilidade da falta de outrem a quem jamais conheceu”. A missão do Cristo só é concebível admitindo-se a reencarnação das mesmas almas, esclarecendo-lhes quanto às vidas passadas e quanto ao futuro que as aguarda após despojarem-se de suas imperfeições.

Os espíritos podem estacionar em seu desenvolvimento, mas nunca regredir. Assim, os espíritos exilados para um mundo inferior, conservam seu desenvolvimento moral e intelectual, apesar do meio onde se encontram.

[*] Allan Kardec. A Gênese, Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. Cap. XI, A Gênese Espiritual.

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O QUE É ESPIRITISMO? [*]

O ESPIRITISMO É, AO MESMO TEMPO, UMA CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO E UMA DOUTRINA FILOSÓFICA. COMO CIÊNCIA PRÁTICA ELE CONSISTE NAS RELAÇÕES QUE SE ESTABELECEM ENTRE NÓS E OS ESPÍRITOS; COMO FILOSOFIA, COMPREENDE TODAS AS CONSEQUÊNCIAS MORAIS QUE DIMANAM DESSAS MESMAS RELAÇÕES.

Podemos defini-­lo assim:

O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal.

[*] Allan Kardec. O Que é o Espiritismo? Preâmbulo.

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